Notas de Leitura

Hosseini, Khaled, Mil Sóis Resplandecentes, Lisboa, Editorial Presença, 2008.

Hosseini, Khaled, Mil Sóis Resplandecentes, Lisboa, Editorial Presença, 2008.

Mil Sóis Resplandecentes é o segundo romance de Khaled Hosseini que, novamente, nos traz a história recente do Afeganistão, uma história marcada por uma guerra devastadora que, iniciada pela invasão soviética em 1980, culminaria com a implantação do cruel regime taliban em 1996.
Mariam e Laila. Duas mulheres, duas histórias paralelas que a guerra entrecruzará. Mariam, filha ilegítima de um abastado homem de Herat, vê-se condenada a viver com esse estigma numa sociedade marcada pelo domínio masculino. Às mulheres resta uma aptidão: o tahamul, aguentar, conforme lhe explica, com amargura, a sua mãe, proscrita por ter tido essa filha ilegítima. Para alívio da consciência do seu pai que desejava ver a harami, a bastarda, longe da sua vida, Mariam, com a idade de 15 anos, é obrigada a casar com um homem de Cabul, Rashid, trinta anos mais velho. A sua vida na capital afegã restringe-se à casa, ao marido e a sucessivas tentativas, todas falhadas, para ser mãe. Depressa o carácter de Rashid se revela: a sua crueldade extrema fará dele um marido violento, abusador, que reduz Mariam a uma condição de esposa - reclusa. Laila surge no extremo oposto. Filha de um professor, tem uma infância privilegiada. Frequenta a escola em Cabul, lê os livros da vasta biblioteca do seu pai, um homem que acreditava na importância do papel da mulher na família e na sociedade e, consequentemente, sonhando com um futuro auspicioso para a sua adorada filha: “Sei que quando esta guerra acabar, o Afeganistão vai precisar tanto de vocês como dos seus homens, talvez ainda mais. Porque uma sociedade não tem hipótese de progredir se as suas mulheres forem ignorantes” (p.94). Contudo, a guerra fará destruir todas as esperanças. Órfã, Laila, vai ter de lutar pela sua sobrevivência, vendo-se forçada a tornar-se na segunda esposa de Rashid. Tal como Mariam, acabará por ser vítima da violência de Rashid e da violência de uma sociedade anti-feminina: “Tal como a agulha de uma bússola aponta para o norte, o dedo acusador de um homem encontra sempre uma mulher. Sempre” (p.281). Mariam e Laila compartem uma vida de sofrimento, unidas pela amizade, pela coragem e por uma imensa dignidade. A brutalidade de Rashid ditará o seu próprio fim. A justiça (i)legítima é feita por Mariam que, pelo homicídio do marido, será condenada à morte. Nos seus derradeiros momentos, ajoelhada diante do carrasco, assume uma serena resignação perante o seu destino, uma sensação de paz por abandonar este mundo “como uma mulher que amara e fora amada. Abandonava-o como amiga, companheira, guardiã. Uma mãe […] um fim legítimo para uma vida com um princípio ilegítimo” (p.286). Para Laila, resta a esperança de um novo começo, quando a paz se começa a vislumbrar no Afeganistão, nessa terra esquecida por Deus e devastada pela barbárie dos homens.