Notas de Leitura

Macciocchi, Maria Antonietta, Paixão e Morte de Leonor da Fonseca Pimentel na Revolução Napolitana, Lisboa, Editorial Caminho, 1995.

Macciocchi, Maria Antonietta, Paixão e Morte de Leonor da Fonseca Pimentel na Revolução Napolitana, Lisboa, Editorial Caminho, 1995.

Leonor da Fonseca Pimentel (1752-1799), figura ímpar da cultura europeia, continua, infelizmente, pouco conhecida entre o público português. Leonor, filha de portugueses radicados em Roma, nasceu, nessa mesma cidade, no ano de 1752. Inserida num ambiente económico e social privilegiado, Leonor usufrui de uma esmerada educação intelectual (no domínio das artes, das línguas e das ciências), com o apoio da sua família, orgulhosa da inteligência e sensibilidades demonstradas pela jovem. Em 1760, os Fonseca Pimentel mudam a sua residência para o reino de Nápoles. Será nessa cidade que Leonor encontrará o seu fim, assassinada em 1799, na sequência dos acontecimentos políticos que marcaram a revolução e a contra-revolução napolitanas (1797-1799). É a vida de Leonor da Fonseca Pimentel, tão intensa quanto singular, que Maria Antonietta Macciocchi nos revela neste magistral livro. Impressiona o afecto e o respeito com que a Autora retrata a sua protagonista, mas sem nunca descurar o trabalho metódico e intensivo de pesquisa das fontes historiográficas, possibilitando ao leitor uma correcta compreensão do contexto histórico em que decorreu a vida de Leonor. Com efeito, a Europa da segunda metade do século XVIII foi marcada, irreversivelmente, pela Revolução Francesa de 1789. O reino de Nápoles, governado pela dinastia dos Bourbons, viu com horror os acontecimentos de Paris: a rainha Maria Carolina era irmã da rainha de França, condenada à morte e executada, tal como o marido, o rei Luís XVI, em 1793. Contudo, a elite intelectual napolitana, da qual Leonor fazia parte, assumiu pacificamente o ideal revolucionário, empreendendo uma tentativa de mudar a feição política, económica e social do Reino de Nápoles, um dos mais pobres e atrasados da Europa das Luzes. A criação da Republica Cisalpina (29 de Junho de 1797) foi a materialização dessa intenção.
Ao longo das magníficas páginas escritas pela Autora, somos confrontados com a vida privada/pública de Leonor. Se educação privilegiada marca a juventude de Leonor; a morte de sua Mãe e o degradante casamento com Dom Pascoal Tria, são acontecimentos profundamente dolorosos que deixam feridas na sua vida de mulher adulta. Mas, Leonor não deixa de lutar pela sua integridade e pela sua dignidade. Com a ajuda do seu bondoso Pai consegue obter a separação do marido (algo insólito numa época e numa sociedade marcadas pela hegemonia masculinas) e dedicar-se, plenamente, ao seu trabalho como escritora e filósofa, a par de uma intensa actividade política em nome dos ideais da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, materializada no seu trabalho como redactora do Monitore Napoletano.
Tal ousadia não seria perdoada pelos Bourbons. A contra-revolução napolitana, liderada pelo monarca, orquestrada pela Igreja Católica e executada pela populaça violenta, é um dos momentos mais marcantes da prosa da Autora, e deveras impressionante para o leitor. Leonor é feita prisioneira, juntamente com os seus companheiros, sumariamente julgada, e condenada à morte. No dia 20 de Agosto de 1799, Leonor da Fonseca Pimentel foi publicamente enforcada na praça do mercado da cidade de Nápoles. Tinha 47 anos. A crueldade do acto é-nos amplamente descrita pelas palavras de Maria Antonietta Macciocchi: o caminho percorrido a pé, exposta às injúrias da populaça, o facto de ser a ultima executada e, por isso, obrigada a assistir ao suplício dos seus companheiros de luta, o júbilo da plebe perante a sua morte, numa demonstração de ódio contra a aristocrata, erudita e revolucionária, mas, sobretudo, contra a mulher que não aceitou viver de acordo com as convenções. A sua memória foi homenageada e cristalizada neste livro singular.