Notas de Leitura

Mahfouz, Naguib, Miramar, Porto, Civilização Editora, 2012.

Mahfouz, Naguib, Miramar, Porto, Civilização Editora, 2012.

O Egipto da década de 60 do século XX, governado por Nasser e marcado por fortes convulsões políticas e sociais, constituiu o cenário deste romance. A pensão Miramar, situada na cidade de Alexandria, é o palco de uma complexa narrativa que se vai desenrolando de uma forma circular, onde a mesma realidade é encarada na perspectiva de diferentes personagens, cujas vidas e personalidades vamos conhecendo ao longo da história.
Amer Wagdi personifica o velho sábio que espera viver serenamente o final de uma vida atribulada. Decide alojar-se na pensão Miramar em virtude dos laços de amizade que o unem à sua proprietária, uma emigrante grega radicada em Alexandria há muitos anos. À pensão vão chegando outros hóspedes: Tolba Marzuq, também velho e cansado da vida, e os jovens Hosni Allam, Mansur Bahi e Sarhan Al-Biheiri. A dimensão psicológica dos jovens é-nos implicitamente descrita: Hosni Allam, aristocrata à procura de um sentido para uma vida vazia, inútil e sem futuro; Mansur Bahi, radialista esquizofrénico; e Sarhan Al-Biheiri, contabilista ambicioso e sem escrúpulos: em comum, só a sua condição de hóspedes da pensão Miramar e um passado sombrio que querem esquecer. No centro da história encontra-se Zohra, a singular personagem feminina. Bela e jovem, Zohra é uma camponesa que fugiu da aldeia natal por recusar um casamento de conveniência. Consegue empregar-se como criada de servir na pensão Miramar e quer instruir-se, aprender um ofício e tornar-se uma mulher independente. Cada um dos jovens elementos masculinos focaliza a sua atenção em Zohra. A relação que cada um deles estabelece ou pretende estabelecer com Zohra constitui a trama desta narrativa circular. Quando o círculo se fecha, quando vidas se desvanecem e se dispersam, Zohra inicia uma nova vida, “pois aquele que consegue perceber o que não lhe convém descobre, como que por milagre, o bom caminho” (p.188).