Notas de Leitura

Morrison, Toni, A Dádiva, Lisboa, Editorial Presença, 2009.

Morrison, Toni, A Dádiva, Lisboa, Editorial Presença, 2009.

Esta obra da consagrada escritora Toni Morrison demonstra como a beleza literária de um romance é reveladora da complexidade do passado histórico dos Estados Unidos da América.
Em 1682, a colónia da Virgínia era um espaço social e politicamente violento. Alheio a esta situação, o casal de pioneiros de origem anglo-holandesa, Jacob e Rebekka Vaark, procura construir o seu futuro na colónia, uma terra imensa, onde podem “respirar o ar de um mundo tão novo … de uma beleza que arrancava lágrimas” [p.16]. No pequeno espaço onde se estabelecem, desenvolve-se uma casa e nela a vivência dos seus habitantes. A narrativa é construída em torno de quatro personagens femininas: Rebekka e as três serventes que integram a sua casa, Lina, Florens e Sorrow. De uma forma particularmente pungente, Toni Morrison desvenda-nos a história destas mulheres. Rebekka, oriunda de Inglaterra, escolhe partir para o Novo Mundo para casar com um homem que nunca vira, sem medo da aventura e do desconhecido, escapando a um futuro miserável numa Europa dilacerada por conflitos religiosos. Lina, única sobrevivente de uma tribo de índios dizimada pelas epidemias transmitidas pelos europeus, fora adquirida por Jacob que, tal como os restantes colonos, admirava a capacidade de trabalho das mulheres nativas. Sorrow, a estranha e melancólica rapariga mestiça que, depois de aparecer naufraga numa praia da região, fora recolhida pelo casal. Por último, Florens, nascida escrava numa plantação de tabaco em Maryland e entregue a Jacob como pagamento de uma dívida.
Até chegarem à tutela de Jacob Vaart, percorrem um percurso sinuoso, numa constante luta pela sobrevivência, que lhes deixa um legado de solidão, de mágoa e ira. A morte de Jacob e a doença da sua mulher deixam Lina, Sorrow e Florens num estado de profunda vulnerabilidade, com o estatuto de mulheres que não são pertença de ninguém, consequentemente, sujeitas à violência de um mundo tão hostil. Mas, há dádivas surgidas inesperadamente: um homem (Jacob) que vê na pequena negra a criança (Florens) e não a mercadoria lucrativa; a voz que soa do fundo do coração de uma mãe (a escrava) que ainda consegue acreditar num futuro melhor para uma filha (Florens).