Notas de Leitura

Nemésio, Vitorino, Portugal. A Terra e O Homem. Antologia de Textos de Escritores dos Séculos XIX-XX, sl, Fundação Calouste Gulbenkian, 1978.

Nemésio, Vitorino, Portugal. A Terra e O Homem. Antologia de Textos de Escritores dos Séculos XIX-XX, sl, Fundação Calouste Gulbenkian, 1978.

Uma antologia é sempre um trabalho precioso. Para quem a elabora e para quem a lê. Vitorino Nemésio reuniu e organizou um representativo conjunto de textos de alguns dos escritores que marcaram as nossas letras nos séculos XIX e XX, com a finalidade de elucidar o leitor sobre as peculiaridades da terra e do homem portugueses. Neste processo de recolha dos textos, Vitorino Nemésio focalizou a sua atenção naquilo que era o essencial da vida lusitana, da sua terra e da sua história: “alguma coisa de que é peculiarmente português…intimidade, visão do mundo, o estilo do viver e do sentir” [p.7]. Os autores, cujos excertos integram esta obra, são Oliveira Martins, Alexandre Herculano, Cesário Verde, Ramalho Ortigão, Raul Brandão, Júlio Dinis, António Nobre, Eça de Queirós, Camilo Castelo-Branco, Aquilino Ribeiro, Antero de Figueiredo, Almeida Garrett, Fialho de Almeida e Manuel Teixeira Gomes. A leitura da história e da geografia de Portugal é-nos sabiamente transmitida por Oliveira Martins e por Alexandre Herculano. A intensidade do sentir português encontra-se na poesia de Cesário Verde e de António Nobre e na prosa singularmente passional de Camilo Castelo-Branco. Por seu turno, os excertos de Antero de Figueiredo, Almeida Garrett, Fialho de Almeida e Manuel Teixeira Gomes revelam a unicidade da terra e da grei. Mas, cumpre-me destacar, meramente em função do meu gosto pessoal, Ramalho Ortigão e a sua deliciosa descrição do Porto, em 1850, e das “proezas de uma geração de estouvados que ficaram memoráveis nos fastos da sociedade portuense” (p.74); a visão prodigiosa do litoral e da faina do mar na prosa de Raul Brandão que nos revela “gentes marcadas pela amargura, pela resignação, pela dor e pela humildade” (p.94); o bucolismo idílico, pleno de valor documental, de Júlio Dinis, com o excerto de A Morgadinha dos Canaviais; Eça de Queiroz e a deslumbrante descrição da paisagem do Douro n’ A Cidade e as Serras, “o espaço imenso repousando num imenso silêncio” (p.183), onde o protagonista, graças a essa serra bendita, se reconcilia com o Portugal profundo, tradicional e belo; e, por último, Aquilino Ribeiro, cuja escrita fecunda expressa a condição humana nas zonas montesinas. Um livro para celebrar a beleza, a força e a grandeza da nossa literatura.