Notas de Leitura

Némirovsky, Irene, David Golder, Lisboa, Relógio de Água, 2012.

Némirovsky, Irene, David Golder, Lisboa, Relógio de Água, 2012.

É de louvar o trabalho desenvolvido pela Editora Relógio de Água, pois tem-me proporcionado um importante contacto com obras e autores cuja existência desconhecia. As interessantíssimas informações contidas no prefácio de Francisco Vale levaram-me a ter uma enorme curiosidade por esta autora, nascida em Kiev, em 1903, e morta no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, no Verão de 1942.
David Golder é um livro de narrativa poderosa que nos revela os últimos tempos de David Golder, um implacável homem de negócios. Sem complacência, Irene Nemirovsky descreve o mundo de David Golder, um judeu originário da Rússia, nascido numa família pobre, e que vê no dinheiro e no combate pela sua multiplicação a principal razão da sua existência. A vida familiar de David Golder é retratada na sua complexa dimensão psicológica. Para a mulher, Glória, e para a filha, Joyce, ele é uma mera fonte de rendimento, alguém que serve para lhes proporcionar a vida luxuosa que ambas tanto prezam. O suicídio do sócio, Marcus, e a doença surgida repentinamente, provocam um revés nos negócios de Golder. Abandonado pela família, dispõe-se a viver os seus últimos dias em solidão e sem qualquer nostalgia pelo passado. Contudo, tal não se afigura assim tão simples. O amor quase doentio que nutre pela filha e o desejo de a deixar bem na vida, fazem David Golder regressar ao mundo dos negócios, onde espera fazer muito dinheiro com a exploração petrolífera na região do Cáucaso. Muito doente, desloca-se a Moscovo para tratar das respectivas formalidades. Quando consegue embarcar num porto do Mar Negro, num barco destinado a Constantinopla, já será muito tarde. Não consegue resistir e, ironicamente, morre a bordo, completamente só e desamparado, obrigado a confiar as suas últimas decisões a um outro passageiro, um jovem judeu em fuga da então União Soviética e com a expectativa de fazer fortuna na América. Tal como ele o fizera meio século antes.