Notas de Leitura

Nery, Júlia, Da Índia, Com Amor, Porto, Sextante Editora, 2012.

Nery, Júlia, Da Índia, Com Amor, Porto, Sextante Editora, 2012.

Perfeitamente inscrito na longa e rica tradição do romance histórico escrito em português, Da Índia, com amor, leva-nos ao século XVI, ao complexo e vasto universo da presença dos portugueses em Goa. As protagonistas são duas jovens, Joana e Violante, com estatuto de órfãs d’el-rei e, como tal, levadas para Goa onde lhes seria arranjado casamento conveniente, isto é, com um soldado luso ou luso-descendente, contribuindo, dessa forma, para o fortalecimento da presença portuguesa e cristã em terras do Oriente. A bordo de uma nau que integrava a armada da Carreira da Índia e sob a protecção do juiz nomeado vedor da Fazenda de Goa, Joana e Violante transmitem-nos pensamentos e sensações, sugerindo-nos uma viagem interior que será percorrida, em simultâneo, com a longa e penosa viagem pelo Atlântico e pelo Indico, desde a partida do cais de Lisboa até à sua chegada à Índia. Goa é-nos descrita com uma notável precisão: animada pela riqueza gerada pelo comércio das especiarias, pela diversidade cultural e étnica, mas, também, uma terra de muitas guerras: guerras movidas contra os portugueses pelos piratas e pelos potentados indianos, guerras entre esses mesmos potentados. Os casamentos de Violante, com D. Diogo de Meneses, e de Joana, com Gaspar de Noronha, soldado na Índia há vários anos, e a sua consequente integração na sociedade goesa, provocam um confronto com a cultura local, especialmente sentido por Joana. As dúvidas sobre si e sobre a sua fé tornam-se uma realidade difícil de suportar, tão difícil que Joana não hesitará em fugir: “Temo que os meus pensamentos me levem pelas enviesadas vias da heresia. […] Prisioneira desta ilha de Goa fechada com muralhas, defendida por fortalezas, pelos guardas das suas muitas portas e pelas ordens d’ el-rei, porei pé e a determinação de minha livre vontade em qualquer caminho que me leve para fora daqui” (p.210). Partindo para o reino como clandestina, Joana abandona o marido e a vida privilegiada que usufruía em Goa. Contudo, a nau onde viajava sofre um naufrágio junto ao Cabo da Boa Esperança. Juntamente com outros sobreviventes, Joana consegue alcançar a praia e, todos juntos, partem em busca de auxílio, supostamente possível de obter na zona do rio descoberto por Lourenço Marques, na Aguada da Boa Paz. Perdidos em terras africanas, os náufragos vêem-se à mercê dos maiores perigos. É nesse cenário de profunda desolação que termina a narrativa de Júlia Nery e, com ela, a viagem (interior) de Joana: “Levanto-me. Cobro alento. Prendo no rosário a imagem de minha mãe pintada no medalhão e ponho-o ao pescoço. No dedo, o anel. Sei quem sou” [p.238].