Notas de Leitura

Northup, Solomon, 12 Anos Escravo, Marcador Editora, 2014.

Esta obra foi originalmente editada em Nova Iorque, no ano de 1853, com a finalidade de transmitir, junto do público, a narrativa de Solomon Northup sobre a sua cruel experiência como escravo de uma plantação na região de Red River, no interior do Luisiana. Trata-se de um interessante testemunho com valor histórico, uma vez que nos proporciona, através da perspetiva de um escravo, um conhecimento sobre a instituição esclavagista, então sustentáculo da economia dos Estados Sulistas. Importa sublinhar que o Autor, descendente de escravos alforriados, nascera com o estatuto de homem livre na localidade de Saratoga, no estado de Nova Iorque, onde trabalhava como assalariado e constituíra a sua família.
Por ocasião de uma funesta viagem à cidade de Washington, no ano de 1841, o Autor é raptado por um traficante de escravos e embarcado com destino à cidade de Nova Orleães, o maior centro abastecedor de mão-de-obra escrava das inúmeras plantações de açúcar e algodão do Texas, do Luisiana e do Mississípi. Num relato com grande qualidade informativa, o Autor descreve a instituição da escravatura tal como ele a observou e vivenciou, até ser, felizmente, resgatado e devolvido à liberdade, doze anos mais tarde. Sublinho três aspetos que me pareceram de grande pertinência e motivo de reflexão: 1) as características dos proprietários dos escravos; 2) o quotidiano de uma plantação no Luisiana; 3) a reflexão do Autor acerca da intrínseca iniquidade da escravatura. A experiência de Solomon Northup revela-nos que a natureza bondosa ou maldosa dos proprietários ditava, inexoravelmente, o destino do escravo. Os vários exemplos dados pelo Autor permitem perceber que, por norma, eram homens de uma rigorosa observância religiosa e que encontravam na Bíblia a justificação da escravidão do homem negro. O quotidiano do escravo era marcado pelo trabalho ininterrupto, pela violência dos capatazes e dos donos, pela deficiência da alimentação e acomodação, em suma, por uma vida totalmente à mercê do proprietário, e desconhecedora de uma qualquer outra realidade. Para Solomon Northup a escravatura era o «terrível pecado» de uma nação que, na sua Declaração de Independência, afirmara que todos os homens eram criados livres e iguais. Perante esta afirmação, só a via abolicionista assumia todo o sentido.