Notas de Leitura

Andrade, Eugénio de, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Porto, Campo das Letras, 7.ª Edição, 2002.

Andrade, Eugénio de, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Porto, Campo das Letras, 7.ª Edição, 2002.

Detenhamo-nos nas próprias palavras de Eugénio de Andrade que nos dizem, com a beleza que caracteriza a sua escrita, acerca desta antologia: "Esta é a poesia portuguesa que, após mais de sessenta anos de lê-la, a memória me traz à tona […] São estas cintilações da memória que, depois de tanto tempo de convívio, ainda amo […] É só isto, esta antologia: Uma escolha pessoalíssima". (p.9).
Nesta escolha pessoalíssima de Eugénio de Andrade estão todos os grandes vultos da poesia portuguesa, os maiores da nossa língua: Camões, Cesário, Pessanha e Pessoa. Mas também os poetas do Cancioneiro e do Romanceiro, Gil Vicente, Bernardim, Sá de Miranda, Antero, Gomes Leal, Nobre, Pascoaes, Sá-Carneiro, Jorge de Sena. Esta é a poesia portuguesa que Eugénio de Andrade, de forma exemplar, reuniu e connosco quis partilhar. Para os amantes da poesia e, sobretudo, da poesia escrita na nossa língua, esta Antologia é um deleite. E, dentro dela, o leitor será tentado a fazer a sua própria escolha, ou escolhas. Eu fiz as minhas: os Sonetos de Camões pela sua imensa actualidade; Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes pela forma sublime como usam as palavras e, com elas, nos demonstram os sentimentos mais profundos do ser humano; Fernando Pessoa com o Mar Português; o seu heterónimo Alberto Caeiro e o Oitavo Poema de O Guardador de Rebanhos. E poderia continuar esta minha Antologia, a partir da brilhante selecção de Eugénio de Andrade, destacando Miguel Torga, Jorge de Sena ou Mário de Cesariny. Mas é a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen aquela que mais tocou a minha sensibilidade de leitora. Deixo a transcrição do seu poema Pátria (pp. 461-462). Para mim, um dos mais belos que nos legou:

Pátria, de Sophia de Mello Breyner Andersen

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento

Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo