Notas de Leitura

Piñon, Nélida, Livro das Horas, Temas e Debates, 2013.

Piñon, Nélida, Livro das Horas, Temas e Debates, 2013.

Figura ímpar no contexto da escrita brasileira contemporânea, Nélida Piñon partilha connosco, num texto repleto de referências literárias, artísticas e estéticas, as suas reflexões quotidianas. É o universo de uma escritora que ama a vida diária e sorri perante a sua banalidade (p.20). Aprendendo o valor da solidão e enaltecendo uma vida interior, a Autora fala-nos da sua escrita, do amor e da amizade, da sua relação com os leitores.
Com uma formação literária fundamentada na literatura clássica greco-latina, diz-nos que aspira a ser, apenas, uma escritora que «ronda a vida e a morte» (p.40) e que o fracasso literário é didático porque lhe impõe a criação de um outro acervo (p.38). Assume a sua reverência por Machado de Assis, que considera ser a figura que melhor encarna o Brasil, e porque lhe dá o alento que a condena a prosseguir, apesar das desilusões (p.115). A sua regalia é mergulhar no passado e ler, sempre com um deleite renovado, os autores gregos e romanos, com os quais estabelece identidade. A eles lhes deve a crença na imortalidade e na noção de que é parte da sucessão humana (p.132-133). Sófocles e Eurípedes porque abonaram a sua vocação de escritora, Homero porque abasteceu as suas narrativas. Para Nélida Piñon, a felicidade «está ancorada nas mil definições incertas» (p.199), mas dela fazem parte o afeto e a inteligência dos amigos, e o dia-a-dia na sua casa do bairro de Lagoa, no Rio de Janeiro, partilhado com o cão Gravetinho, animal pequeno, rechonchudo e cor-de-mel, a alegria dos seus anos maduros. Diz-nos levar no rosto «uma história curtida» (p.7) que a ajuda a envelhecer, e que «não há penalidade quando se tranca o coração para evitar amar [porque] afinal vale amar a vida, mesmo sem o amor de um amante» (p.28). Esta confissão sobre o amor revela-nos a sabedoria de uma mulher que apenas deseja cuidar a sua humanidade, cuidar a integridade da sua condição, enquanto tiver saúde, livre-arbítrio, liberdade, emoção e coragem (p.192). Aos seus leitores, pede apenas que «aceitem com boa vontade o coração desta escriba que só tem de seu a língua e os sentimentos herdados da sua grei» (p.82). E resume, com perfeição singela, a essência do seu ofício: porque a imaginação é a razão de viver. Porque sem o verbo não há vida. Porque a língua é a salvaguarda das instituições humanas (p.50).