Notas de Leitura

Rhys, Jean, Vasto Mar de Sargaços, Lisboa, Bertrand, 2009.

Rhys, Jean, Vasto Mar de Sargaços, Lisboa, Bertrand, 2009.

Em 1847, Charlotte Bronte publicava o romance Jane Eyre, obra de referência da literatura inglesa do século XIX e, posso acrescentar, uma das minhas preferidas de sempre. Para além da heroína, Jane Eyre, esta história revela-nos outros personagens como Edward Rochester e a sua mulher, Bertha Antoinette Mason que, por sofrer de demência, vivia confinada ao sótão da mansão de Thornfield Hall. Sobre ela o livro diz-nos muito pouco. Apenas que era natural da Jamaica e oriunda de uma família que fizera fortuna no comércio de escravos e nas plantações de cana-de-açúcar. Inspirada na figura misteriosa e perturbadora de Bertha Antoinette Mason e no seu desastroso casamento com Mr.Rochester, Jean Rhys escreveu Vasto Mar de Sargaços, editado em 1966, cuja narrativa demonstra o profundo conhecimento da Autora pela realidade histórica das Índias Ocidentais, muito concretamente, da Jamaica, cuja sociedade marcadamente patriarcal, opressora e endogâmica viu-se confrontada, em meados do século XIX, com a libertação dos escravos por ordem do governo britânico. O livro tem dois narradores - Antoinette e Rochester – que, na primeira pessoa, assumem diferentes perspectivas da mesma história. Em comum, uma aguda percepção do pesadelo existente por detrás de uma paisagem de deslumbrante beleza. Pela narrativa de Antoinette, ficamos cientes da sua infância solitária, marcada pela indiferença da mãe e pelas demonstrações de ódio por parte dos antigos escravos, provocando-lhe um imenso desejo de viver apartada de tudo e de todos. Porém, na qualidade de herdeira de uma considerável fortuna, viu-se à mercê das ambições de homens como Edward Rochester que, recém-chegado à Jamaica, pretendia fazer bons negócios e arranjar um casamento economicamente favorável. Antoinette foi a sua eleita. Esse casamento de conveniência seria o despoletar das fortes emoções negativas, sentidas por ambos, agravadas pelo choque cultural entre duas pessoas de universos demasiados distintos. Perante tal desastre emocional e sem qualquer capacidade de se libertar dessa união, Antoinette enlouquece e acaba por ser levada para Inglaterra. No final, imersa na sua alienação – “quem sou eu e o que faço neste lugar” (p.162) -, encontrará um propósito ao percorrer os longos e escuros corredores de Thornfield Hall com uma pequena vela na mão…