Notas de Leitura

Ribeiro, João Ubaldo, O Feitiço da Ilha do Pavão, Círculo de Leitores, 2000.

Ribeiro, João Ubaldo, O Feitiço da Ilha do Pavão, Círculo de Leitores, 2000.

João Ubaldo Ribeiro reinventou a escrita da língua portuguesa. Julgo não ser uma afirmação excessiva atendendo ao texto em questão, cuja arquitetura e ortografia proporcionam uma leitura tão interessante quanto desafiante. Num espaço – a ilha do Pavão situada algures no mar da Baía – e num tempo – algures na época do Brasil colonial – desenvolve-se uma história que tem como trama central a oposição entre duas visões do mundo e do poder: de um lado, a dos representantes do rei de Portugal e da Igreja, de outro, a dos habitantes da ilha do Pavão que anseiam por viver sem tirania ou iniquidade. A existência da ilha, local de natureza paradisíaca, permanece em segredo, pois “quem a viu não fala dela e quem ouve falar nela não a menciona a ninguém” (p.7). Habitada por diversas gentes, brancos, negros e índios, convivendo em harmonia, a ilha do Pavão viu a sua pacatez ameaçada quando o governador decidiu expulsar os índios da Assinalada Vila de São João Esmoler do Mar do Pavão, principal centro urbano daquele espaço insular. A partir daqui, desenrola-se uma narrativa delirante e repleta de humor, tendo como protagonistas um conjunto ímpar de figuras: o capitão Cavalo, primeiro sesmeiro da ilha e dono das terras de Sossego Manso, o seu filho Pepeu, rapaz folgazão e sedutor mas ansiando por conquistar a jovem e altiva Crescência, Balduíno Galo-Mau, índio Tupinambá, “doutor dos matos”, velhaco e matreiro, Hans Flussufer e D. Ana, ambos fugidos às perseguições religiosas na Europa. Em comum, uma visão da ilha como um espaço de liberdade e comunidade para todos os seus habitantes, onde a Cristandade seria vivida na sua plenitude “que é o amor ao próximo e à justiça, como quis o Cristo que jamais mandou ou desejou queimar quem fosse na fogueira e morreu na cruz por amor a nós” (p.126). Esta visão entrou em confronto com os representantes “da velha ordem das coisas”, a saber: o governador Melo Furtado, o mestre-de-campo Borges Lustosa, o mestre-escola Moniz Andrade, que queriam submeter a ilha do Pavão, unicamente, aos desígnios do rei de Portugal e da Santa Madre Igreja. Quem ganhou esse confronto? Com a sabedoria da vida e do destino (p.39), o Autor relata-nos esses acontecimentos passados numa ilha que existe, sim... mas com “a sua história, a sua gente e o seu próprio tempo, que é diverso dos outros tempos” (p.9).