Notas de Leitura

Roberts, Karen, O Rei dos Coqueiros, Círculo de Leitores, 2002.

Roberts, Karen, O Rei dos Coqueiros, Círculo de Leitores, 2002.

O título original deste romance, July, remete o leitor para o contexto histórico desta narrativa de Karen Roberts, escritora natural do Sri Lanka e atualmente radicada nos Estados Unidos da América. Foi no dia 23 de Julho de 1983 que as ruas de Colombo, capital do Sri Lanka, foram palco do massacre de cidadãos tâmiles, cristãos e hindus, perpetrado pelos cingaleses budistas, a maioria étnica e religiosa deste pequeno país do Indico. Nesse dia, diz-nos a Autora, “o mundo enlouqueceu. Num período de poucas horas, vizinhos amáveis converteram-se em assassinos perversos, saciando a sua súbita sede de sangue” (p.7). Desde tempos remotos que o Sri Lanka é um espaço de conflito entre cingaleses e tâmiles, uma realidade que se manifestou na existência de uma sociedade dividida, étnica e religiosamente. De tal forma que era impossível o fortalecimento de laços entre as pessoas das diferentes etnias, designadamente, por via do matrimónio. É-nos revelado, portanto, um país “ermo, obscuro, introvertido, sinistro. Menos possível de se viver lá feliz” (p.21). Partindo da realidade histórica de Julho de 1983 e das características da sociedade local, Karen Roberts elabora a história singela de um amor proibido entre um jovem tâmil cristão, Niranjan, e uma jovem cingalesa budista, Priyanthi. Conhecem-se desde crianças pois as respetivas famílias eram vizinhas num pacato bairro de classe média – o Jardim das Araliáceas – na zona residencial de Colombo. As relações entre ambas as famílias começam por ser perfeitamente civilizadas e amigáveis, em virtude das afinidades de classe entre os pais, da semelhança de idade dos seus filhos e do companheirismo que as crianças, depois jovens, vão criando entre si. Contudo, sem o desejarem, uma vez que são cientes das normas ditadas pela sociedade onde vivem, Priyanthi e Niranjan são arrastados para o amor, no início da sua idade adulta. A sua relação, marcada pelas promessas impossíveis de cumprir e por uma forte e constante sensação de desespero, culminará em tragédia, precisamente nesse dia 23 de Julho de 1983. Duas famílias destruídas, um bairro, outrora um espaço pacato e familiar, transformado em cenário de absoluta desolação. Porque nesse dia, o mundo enlouqueceu, tal como nos diz a Autora, neste livro revelador de uma literatura como forma privilegiada de interiorizar, de refletir e de dar a conhecer tão terríveis acontecimentos.