Notas de Leitura

Rushdie, Salman, Oriente, Ocidente, sl., Círculo de Leitores, 2000.

Rushdie, Salman, Oriente, Ocidente, sl., Círculo de Leitores, 2000.

Figura de relevo no contexto da literatura contemporânea anglo-saxónica, Salman Rushdie é um escritor que expressa de forma singular a dualidade entre dois mundos aparentemente tão distintos – Oriente e Ocidente – constituindo, em simultâneo, um elo de ligação entre ambos, em virtude da sua dupla referência cultural: a de um homem nascido em Mumbai e educado em Inglaterra. Este livro tem a particularidade de ser uma colecção de short-stories (nove, no total) cuja narrativa, fluida e cativante, conduz o leitor a desenlaces por vezes inesperados, por vezes irónicos ou mesmo sarcásticos, onde o sentido de humor de Rushdie está bem patente. As três primeiras são dedicadas ao Oriente. Têm como cenário a Índia contemporânea e, num registo ora dramático ora divertido, são abordados alguns dos problemas que perpassam aquela sociedade. Assim, conseguimos sorrir com a história do velho matreiro Muhammad Ali e do seu confronto com a jovem “indefesa” Miss Rehana, a propósito da utilidade dos bons conselhos ("Um Bom Conselho é uma Jóia Rara"). Já com o conto "O Cabelo do Profeta", somos confrontados com o drama do fundamentalismo religioso (neste caso, Islâmico) e a forma maligna como penetra no interior das famílias, destruindo-as inexoravelmente. As três narrativas do meio são dedicadas ao Ocidente e têm em comum o registo satírico e parodiador de alguns elementos da cultura anglo-saxónica, nomeadamente a peça de Shakespeare, "Hamlet", e o filme "O Feiticeiro de Oz". Destaco o conto "Cristóvão Colombo e a Rainha Isabel Consumam a sua Relação", onde a sátira e o drama se conjugam numa história que desafia a própria História. Finalmente, as três últimas short-stories, subordinadas à dualidade Oriente/Ocidente. Em todas está presente um registo auto – biográfico, em torno da questão nacionalidade versus identidade. Achei particularmente tocante "O Corteiro", uma narrativa divertida, mas com muitos pontos de reflexão. Se uma das protagonistas, a ayah, consegue encontrar nas partidas de xadrez o elemento de ligação com o velho Mecir, o Autor expressa constantemente o seu sentimento de dupla falta de pertença, o sentimento de “um coração que se arrasta ora para Oriente, ora para Ocidente”.