Notas de Leitura

Scott, Paul, A Jóia da Coroa, Lisboa, Livros do Brasil, 1984.

Scott, Paul, A Jóia da Coroa, Lisboa, Livros do Brasil, 1984.

A Jóia da Coroa é, indubitavelmente, um dos mais interessantes romances que têm como temática central o problema da identidade cultural, num contexto de convulsão política e social. A experiência vivida por Paul Scott ao serviço do exército britânico durante a II Guerra Mundial, mais concretamente nas campanhas da Índia e do Extremo Oriente (1940-1946), e as suas qualidades de observador implacável da vivência da comunidade inglesa sedeada na Índia, permitiram-lhe escrever este livro avassalador, o primeiro de uma série de quatro, no original The Raj Quartet, composta por quatro narrativas distintas, mas perfeita e sabiamente entrelaçadas: The Jewel in the Crown (1966), The Day of the Scorpion (1968), The Towers of Silence (1971), A Division of the Spoils (1975).
A história d’ A Jóia da Coroa, decorre numa localidade indiana ficcionada, Mayapore, no ano de 1942, e apresenta um conjunto de personagens cujas vidas decorriam numa sociedade segregada: de um lado, os colonizadores (os ingleses), do outro, os colonizados (os indianos). A comunidade inglesa é descrita como medíocre e moralmente hipócrita, do lado indiano, uns sobrevivem, outros lutam contra o domínio britânico, seguindo o desígnio de Mahatma Gandhi. Duas personagens femininas sobressaem: Edwina Crane e Daphne Manners, ambas com a ousadia de ignorar o preconceito racial. As suas (trágicas) histórias são contadas ao narrador, já na década de 60, por alguns personagens que testemunharam os acontecimentos de Agosto de 1942, revelando a sua perspectiva do sucedido, assim como das relações entre colonizadores e colonizados. Edwina Crane representa o ideal liberal europeu ao defender a importância de se ministrar uma educação ocidental às crianças indianas. Daphne Manners representa a jovem abastada, sem um rumo próprio, mas que encontra a razão da sua existência no envolvimento emocional e afectivo com o indiano Hari Kumar. A tragédia acontece porque ambas contrariam, cada uma à sua maneira, as regras da comunidade em que vivem, uma comunidade que não perdoa a Daphne a relação com o jovem Kumar. Este, educado em Inglaterra e partilhando os preceitos culturais ingleses, ver-se-á obrigado a “regressar”, de uma forma tão dolorosa quanto cruel, à sua cultura de origem. O rigor da descrição psicológica dos personagens e a crueza da escrita de Paul Scott fazem desta obra (e de toda a série) um testemunho único sobre o crepúsculo do império britânico e dos acontecimentos que antecederam a independência da Índia.