Notas de Leitura

Selasi, Taiye, A Beleza das Coisas Frágeis, Lisboa, Quetzal Editores, 2013.

Selasi, Taiye, A Beleza das Coisas Frágeis, Lisboa, Quetzal Editores, 2013.

A literatura de origem africana atravessa um momento particularmente interessante, tal como nos demonstra o romance de estreia de Taiye Selasi, autora de origem ganesa e nigeriana. Tenho procurado estar atenta à produção literária oriunda deste continente e achei a leitura do livro em apreço reveladora de uma singular abordagem sobre a temática da recente vaga de imigração africana nos Estados Unidos. Uma vaga que chega em busca de melhores condições de vida e com muitos refugiados que tentam escapar do cenário de guerra que tem caracterizado, no último quartel do século XX, alguns dos países da África Ocidental.
Taiye Selasi conta-nos a história de uma família africana contemporânea: o pai, nascido no Gana e médico em Boston, a mãe, nigeriana, vivendo dedicada ao marido e aos quatro filhos do casal, nascidos em solo americano. Representam, segundo a visão do país de acolhimento, o ideal de família africana-imigrante, bem integrada e disposta a lutar por uma melhor posição na sociedade à custa de trabalho árduo e do reconhecimento do mérito pessoal. Um dia, algo muda. O pai decide voltar para o Gana e, sem qualquer explicação, abandona a família, deixando-a entregue a um destino incerto e inseguro. As causas deste abandono assim como as suas consequências na mulher e, sobretudo nos filhos, constituem o coração deste livro. Através de uma narrativa peculiarmente entrelaçada e de uma escrita realista, por vezes perturbante, a Autora conta-nos seis histórias: a do pai, a da mãe e a de cada um dos quatro filhos. Cada uma dessas histórias, com matizes e contornos diferenciados, é reveladora do sofrimento de cada um dos membros desta família. Em comum, uma réstia de esperança. A morte do pai e o regresso de todos ao Gana serão o pretexto para unir, novamente, a mãe e os filhos. Uma reunião familiar caracterizada, de início, por «um desespero coletivo, povoado de significados que florescem em longos silêncios, de olhares que se baixam, de momentos de incómodo disfarçados de boas maneiras» [p.281]. Mas, uma reunião familiar que se revelará geradora de encontro, de verdade, de pacificação, e, sobretudo, de perdão. Porque será morte do pai a permitir o regresso à vida de cada um dos seus filhos, mostrando-lhes que há um futuro e um caminho a percorrer.