Notas de Leitura

Sontag, Susan, O Amante do Vulcão, Círculo de Leitores, 1998.

Sontag, Susan, O Amante do Vulcão, Círculo de Leitores, 1998.

Numa escrita sensorial e minuciosamente elaborada, Susan Sontag conta-nos a história ficcionada de Sir William Hamilton, embaixador britânico no reino das Duas Sicílias, durante o último quartel do século XVIII. A notoriedade deste livro reside no facto de se tratar de uma obra alicerçada em vários estudos históricos e biográficos modernos sem esquecer a documentação da época. A partir dessas fontes, a Autora constrói a sua narrativa sabiamente estruturada em torno de três planos, ora distintos, ora entrecruzando-se: a cidade e a corte de Nápoles; a conjuntura política europeia de finais do século XVIII; a vida de William Hamilton naquela cidade e a sua relação com o meio social e político envolvente.

A cidade de Nápoles, sede do reino das Duas Sicílias, é desenhada como um espaço quase corpóreo, dotado de uma vivência fervilhante: “Mais vasta que Roma era a mais rica e populosa cidade da Península Itálica e, a seguir a Paris, a segunda maior cidade do continente europeu. Capital das catástrofes naturais tinha o mais indecoroso e plebeu dos monarcas, os melhores sorvetes, os mais alegres madraços […] e entre os aristocratas mais jovens, o maior número de futuros jacobinos” (p.27). Neste cenário decorreria o curso da História, marcada pelo impacto, sobretudo na corte e na aristocracia napolitanas, dos acontecimentos da Revolução Francesa. Só a Inglaterra assumiu a capacidade de se opor à vaga revolucionária oriunda de França. Neste contexto, a posição estratégica de Nápoles justificou a presença dos interesses britânicos naquele território. O embaixador inglês William Hamilton, exemplo do decoro e da racionalidade, é-nos descrito como uma figura peculiar, apaixonado pelo vulcanismo e pelo ato de colecionar obras de arte. A sua relação com o mundo é perspetivada pelo olhar de um colecionador, ávido de fruir o belo. Depois de viúvo, a sua segunda mulher será, pela sua juventude e beleza, “a orgulhosa possessão, publicamente exibida, de um grande colecionador” (p.131). Cultivar diletantemente um conjunto de interesses, seja por arte etrusca, seja por estudar o Vesúvio ou o Etna, seja pela prática do violoncelo, ou pelas caçadas com o rei, é o lema de Hamilton, para que se possa desfrutar a vida de um modo tolerável. Contudo, a sua participação, mesmo indireta, nos violentos acontecimentos que decorreram em Nápoles, entre 1797 e 1799, iria demonstrar-lhe a ele, que se via a si próprio como um cavalheiro amável, culto e elegante, que “nem sempre se vive na memória dos homens por aquilo que desejaríamos ser lembrados” (p.348).