Notas de Leitura

Stockett, Kathryn, As Serviçais, Parede, Edições Saída de Emergência, 2010.

Stockett, Kathryn, As Serviçais, Parede, Edições Saída de Emergência, 2010.

Com este seu primeiro romance, Kathryn Stockett conseguiu obter um notável êxito junto do público norte-americano. Com efeito, trata-se de uma história poderosíssima sobre uma realidade que caracterizou o sul dos Estados Unidos da América durante demasiado tempo: a segregação racial no inicio da década de 60 do século XX. A narrativa estrutura-se e desenrola-se através do olhar e da vivência de três personagens femininas, absolutamente marcantes: Skeeter, Aibileen e Minny. As barreiras raciais e sociais definem o quotidiano da cidade de Jackson, Mississípi: de um lado, encontramos Skeeter Phelan, uma jovem oriunda de uma tradicional família sulista; do outro estão Aibileen e Minny, descendentes dos escravos que proliferaram nas plantações do Mississípi, durante os séculos XVIII e XIX, e que, em pleno século XX, não tinham outra alternativa senão ganhar a vida como criadas domésticas. Quando Skeeter começa a trabalhar como jornalista, a sua sensibilidade fá-la despertar para a situação da comunidade negra de Jackson, em especial das suas mulheres, nomeadamente as que servem as famílias brancas, incluindo a sua própria. A relação que estabelece com Aibileen e com Minny, de início marcada pelas formalidades hierárquicas que regiam aquela sociedade segregada, vai estreitar-se em torno de um projecto ousado, arriscado, mas que se denota inevitável para as três mulheres: questionar a realidade circundante através da escrita de um livro elaborado sob a perspectiva das criadas. Como é que estas viam as famílias que serviam? Como se processava esse relacionamento, de âmbito doméstico e familiar? Os testemunhos destas personagens no contexto da sua interacção com as famílias brancas, no caso de Aibileen e de Minny, e a assunção de uma postura em prol dos direitos cívicos da comunidade negra, no caso de Skeeter, revelam um universo de sentimentos complexos e ambivalentes, perfeitamente descrito nesta prosa poderosa de Kathryn Stockett, à qual não ficamos indiferentes.