Notas de Leitura

Thubron, Colin, A Sombra da Rota da Seda, Lisboa, Bertrand Editora, 2014.

Thubron, Colin, A Sombra da Rota da Seda, Lisboa, Bertrand Editora, 2014.

Originalmente editado em 2006, este livro relata a impressionante viagem feita por Colin Thubron que, por via terrestre de Oriente para Ocidente, seguiu o rasto da mítica rota da seda. Foi um percurso efetuado ao longo de oito meses e que teve como ponto de partida a cidade de Xian, situada no coração da China, e como término Antioquia, na Turquia, junto à fronteira com a Síria. Segundo o Autor, o termo “rota da seda” surgiu no século XIX, inventado pelo geógrafo alemão Friedrich Von Richthofen, e designava a multiplicidade de pistas e percursos que, seguindo pela Ásia Central, estabeleceram uma complexa ligação económica e comercial que se estendeu da China ao Mediterrâneo, entre o século II A.C. e o início da Idade Moderna. Em momentos de estabilidade política no vasto território que compreendia a Ásia Central, a rota da seda floresceu. O seu declínio, visível a partir de meados do século XV, foi causado pela desagregação política da Ásia Central que se foi dividindo em canatos turcomanos e mongóis, sempre em estado beligerante, e pelo enclausuramento da China no tempo da dinastia Ming. Mas, o Autor chama-nos a atenção para um ponto deveras interessante: se houve um momento fatalmente decisivo no destino da rota da seda foi o dia, algures no século X, em que um chinês desconhecido descobriu a bússola marítima (pp.330-331).
O Autor assume que seguir a rota da seda é seguir um fantasma (p.19). E por zonas não muito aprazíveis, nos dias de hoje, a um viajante ocidental que está sozinho, quando no tempo da rota da seda só os peregrinos e os loucos viajavam sós (pp.42-43). A cidade de Xian, no interior da China, foi o ponto de partida do Autor. Daí, seguiu em direção ao planalto tibetano para entrar na imensidão da Ásia Central, percorrendo o Quirguistão, o Usbequistão e o Tajiquistão. Continuou pelo norte do Afeganistão, pelo Irão e chegando, finalmente, à Turquia. Não estamos perante um relato de viagens linear, mas sim perante algo mais profundo: uma escrita que transmite a relação que o Autor tem com o espaço que atravessou, com as pessoas que foi contactando e com a imensidão da História de uma vastíssima área que hoje enfrenta importantíssimos desafios políticos e económicos. Destaco a passagem pela fascinante Samarcanda, cidade fundada por Tamerlão, o conquistador do mundo, em finais do século XIV, e pelo dilacerado Afeganistão onde Colin Thubron sentiu, na sua população, “uma herança inviolada e a recusa da piedade” (pp.266-267).
Os mapas desenhados por Reginald Piggott, ilustrando o percurso seguido pelo Autor, e as tábuas cronológicas relativas à China, à Ásia Central, ao Irão e ao Ocidente, são elementos que enriquecem este precioso texto, ajudando o leitor a situar-se no espaço e no tempo.