Notas de Leitura

Vargas Llosa, Mário, O Paraíso na Outra Esquina, sl., Círculo de Leitores, 2003.

Vargas Llosa, Mário, O Paraíso na Outra Esquina, sl., Círculo de Leitores, 2003.

Num dos seus livros mais interessantes, Vargas Llosa revela-nos uma história única, com a particularidade de estar desdobrada em duas narrativas paralelas. O pintor Paul Gaugin e a sua avó materna Flora Tristan são os protagonistas desta obra. Nunca se conheceram. Por isso, as suas curtas mas intensas vidas são narradas em capítulos alternados, mas com um elo de ligação: o desejo incessante de construir o paraíso na terra. Como? Flora Tristan, activista na luta dos direitos do operariado e das mulheres na França do século XIX, sonha com a edificação de uma sociedade igualitária, justa e fraterna. Paul Gaugin, o pintor ansioso pelo exotismo, pelo desconhecido e pela fuga, quer viver a pureza sensual do mundo primitivo e construir o seu pequeno Éden de criação artística luxuriante, livre e audaz, sem os constrangimentos ditados pela civilização europeia.

Duas vidas em ruptura com os valores culturais e sociais do mundo em que nasceram. Flora Tristan passa o ano de 1844 em digressão pela França, divulgando o seu projecto de transformação da humanidade, a União Operária, e tentando ultrapassar os constantes obstáculos impostos pelas autoridades que a viam como perigosa subversiva e, de igual modo, lutar contra a ignorância e o medo dos destinatários da sua mensagem revolucionária. Paul Gaugin, quando desembarca na Polinésia em 1891, tenciona demonstrar, através da sua arte, que pintar não representa a destreza de um ofício mas sim uma plena vivência da fantasia capaz de criar mundos diferentes da realidade. Seria essa a obrigação do artista: criar, nunca imitar. Numa escrita pictórica, o Autor faz-nos reflectir sobre o processo criador de Paul Gaugin, e da realização de uma arte peculiar, verdadeira “explosão de luz, de paisagens exóticas com aquele mundo de homens e mulheres ao natural, orgulhosos dos seus corpos e dos seus sentidos” [p.34]. Gaugin nunca esquecera o encontro com Vincent Van Gogh, o “Holandês Louco”, quando, em Arles, buscaram novas formas de expressão plástica, em contraponto com o impressionismo, tão em voga no dominante meio artístico parisiense. Ambos quiseram fazer algo diferente e, sem dúvida, conseguiram-no, com a convicção de que a pintura é o resultado do lado mais obscuro do artista, que deve criar livre de medo ou constrangimento algum. Ambos foram, em vida, tratados com desdenhosa condescendência e, muitas vezes, votados ao ostracismo. O seu legado artístico, tão deslumbrante quanto revelador de uma profunda solidão e sofrimento, revela-se pela maestria da prosa, sempre fascinante, de Vargas Llosa.