Notas de Leitura

Zimler, Richard, Os Anagramas de Varsóvia, Lisboa, Oceanos, 2009.

Zimler, Richard, Os Anagramas de Varsóvia, Lisboa, Oceanos, 2009.

Este livro de Zimler, de escrita intensa e dura, tem como cenário o gueto de Varsóvia, um dos múltiplos locais destinados a pôr em prática o plano de destruição dos judeus europeus, concebido pela Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial. Em Setembro de 1940, Erik Cohen vê-se obrigado a deixar a vida digna e confortável que usufruía, como respeitado médico psiquiatra, e a encarcerar-se no gueto de Varsóvia, local onde cerca de meio milhão de judeus se viu forçado a viver num espaço com pouco mais de um quilómetro quadrado, sem qualquer contacto com o exterior. A brutalidade da vivência quotidiana do gueto é-nos dada a conhecer pela profundidade do olhar de Erik Cohen. Só a relação com a sobrinha Stefa e, sobretudo, com o adorável filho desta, o pequeno Adam, consegue mitigar a total desolação em que se transforma a sua vida. A morte de Adam, assassinado em circunstâncias misteriosas, constitui a trama central desta história, assim como a procura incessante da verdade por parte de Erik. Quando percebemos que a morte e mutilação de Adam não fora um caso isolado, pois outras crianças do gueto haviam já conhecido semelhante destino, surge a inevitável interrogação sobre o porquê de semelhantes acontecimentos. Através da demonstração da existência de uma ligação entre o assassinato destas crianças e o poder nazi, Zimler confronta o leitor com a tragédia que assolou os judeus europeus. Desta forma, a morte das crianças simboliza a destruição do futuro de um povo. Quase todos os personagens que compõe esta história terão um final trágico nos campos de morte da Polónia oriental, no decurso de 1942. Porém, apesar da imensa destruição provocada pela guerra, houve quem tenha conseguido sobreviver, houve quem tenha conseguido passar a escrito a sua vivência no gueto, deixando à posteridade o testemunho de um tempo marcado pelo ódio. A história de Erik Cohen é um desses testemunhos que Richard Zimler nos dá a conhecer de uma forma tão fascinante quanto brutal.