Notas de Leitura

Zweig, Stefan, Mendel dos Livros, Porto, Assírio & Alvim, 2014.

Zweig, Stefan, Mendel dos Livros, Porto, Assírio & Alvim, 2014.

Considero Stefan Zweig (Viena 1881- Petrópolis 1942) um dos maiores escritores da primeira metade do século XX. A sua vasta e belíssima bibliografia, repartida por vários géneros, revela uma arte da narrativa assente numa escrita profunda e harmoniosa. O texto em apreço foi escrito em 1929 e originalmente publicado no jornal diário vienense Neue Freie Presse. Narra a comovente história do alfarrabista Jakob Mendel, judeu ortodoxo originário do leste da Europa e que, estabelecido em Viena, vivia plenamente dedicado à compra e venda de livros aos universitários daquela cidade. Esse peculiar alfarrabista, famoso no meio académico, passava os dias no café Gluck, local onde recebia os seus clientes, e ocupava o tempo a ler todos os livros que lhe iam passando pelas mãos. O seu amor aos livros e à leitura fizeram de Jakob Mendel um verdadeiro repositório bibliográfico vivo, pois conhecia toda e qualquer obra, tanto as publicadas recentemente como as mais antigas. Viena, cidade cosmopolita e civilizada, sofreria terríveis consequências com a eclosão da Grande Guerra (1914-1918). E o alfarrabista vivendo “no seu mundo superior de livros onde não havia guerras nem mal-entendidos, mas sim tão-somente o eterno saber e o querer saber ainda mais” [pp.72-73],seria uma das imensas vítimas de todas as atrocidades da guerra. As autoridades de Viena rejeitam-no por ser um cidadão do leste da Europa com ascendência russa, logo inimigo do Império Austro-Húngaro. Detido e enclausurado num campo de concentração, Jakob Mendel será reduzido à mais absoluta miséria. Regressado a Viena, encontra uma cidade transformada e transtornada onde a hospitalidade para com os estrangeiros deixou de existir. Rejeitado e expulso do seu café Gluck, morrerá depauperado, mais uma vítima de uma Europa enlouquecida e esquecida do saber e do conhecimento, do cosmopolitismo e da vivência civilizada entre culturas e religiões distintas. Mas, porque os livros têm a capacidade de unir as pessoas [p.87], o alfarrabista, mesmo escorraçado e silenciado, acabaria por cumprir essa missão. Os seus clientes, entre eles o narrador desta história, não o esqueceram.
De salientar o interessantíssimo texto de apresentação deste livro, da autoria do seu tradutor Álvaro Gonçalves, acompanhado da cronologia biográfica de Stefan Zweig.