Notas de Leitura

Zweig, Stefan, O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2014.

Zweig, Stefan, O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2014.

Esta notável obra de Stefan Zweig, escrita numa vertente autobiográfica e memorialista, assume o valor de um importantíssimo depoimento de um homem de cultura e humanista perante os dois mais importantes acontecimentos da Europa do século XX: as duas guerras mundiais que, decorrendo no espaço das suas fronteiras (e além dele), dilaceraram a Europa e os seus habitantes. Porquê a necessidade de dar o seu testemunho? O Autor assim nos explica: «fui contemporâneo das duas maiores guerras da Humanidade […] contra a minha vontade fui testemunha da mais terrível derrota do bom senso e do mais selvagem triunfo da brutalidade alguma vez ocorridos na crónica dos tempos» (pp.12-14). Trata-se de um longo texto que foi escrito durante o seu exílio no Brasil, em 1941-42, em plena II Guerra Mundial, e com a particularidade de ter sido redigido sem qualquer auxílio documental. Porque, justamente, a sua condição de perseguido pelo III Reich e, consequentemente, de refugiado, primeiro em Inglaterra e depois no Brasil, impediu-o de ter consigo quaisquer recordações materiais do seu passado.
Vienense, por nascimento, europeu, por profunda convicção, Stefan Zweig assume, ao longo do texto, a sua condição de humanista e observador privilegiado da vivência cultural do coração da Europa (Viena – Paris – Berlim), onde a pertinência e profundidade das suas reflexões nos revelam o pulsar político, económico e social destes espaços, desde o final do século XIX até ao deflagrar da II Guerra. No período que antecedeu a Grande Guerra, o Autor afirma convictamente que viveu num «mundo de segurança». Viena é descrita como a cidade da arte, onde cada habitante amava a cultura e o conhecimento, uma urbe privilegiada cujo «sentido residia precisamente no encontro dos elementos mais heterogéneos e no seu espírito supranacional» (p.43). A guerra de 1914-1918 destrói, irremediavelmente, este “mundo seguro” e, de igual modo, a ideia de construção de uma Europa unida pela fraternidade cultural e espiritual. Com precisão, define a essência cruel da Grande Guerra: um acontecimento que sacrificou toda uma geração aos interesses dos fabricantes de armamento e à paixão do jogo diplomático alimentada por políticos desastrosos (p.349). A ascensão de Hitler na Alemanha, em 1933, a consolidação do III Reich no decurso desta década, e a anexação da Áustria, em 1938, levaram a Europa, novamente, a entrar num brutal conflito. Para o Autor, que teve a sorte de conseguir fugir para Inglaterra, à semelhança de muitos outros perseguidos alemães e austríacos, começava uma época tenebrosa. Revela-nos a sua angústia perante a conjuntura política europeia que assistia, impávida e serena, à violência crescente da Alemanha nazi. Revela-nos a angústia do seu estatuto de refugiado, sem direitos nem pátria. A ideia de uma Europa como pátria-comum estava destruída. A Stefan Zweig só lhe restou continuar entregue ao seu trabalho de escritor, em silêncio e recolhimento. Até ao derradeiro desespero.