Notas de Leitura

Divakaruni, Chitra Banerjee, Casamento Forçado, Círculo de Leitores, 2004.

Divakaruni, Chitra Banerjee, Casamento Forçado, Círculo de Leitores, 2004.

É uma obra particularmente bem conseguida. Nesta antologia de contos, a Autora reúne onze narrativas surpreendentes, finalizada por um interessante glossário que explica ao leitor o significado das expressões de origem bengali e hindi que são usadas ao longo do texto. Todas estas histórias refletem o problema sobre o qual a Autora nos pretende fazer refletir: a condição feminina indiana num contexto sociológico e cultural onde impera, esmagadoramente, uma tríade de poderes: o da casta, o da família e o da tradição. E esses poderes, manifestos na sociedade indiana, conseguem ser transpostos além-fronteiras quando a mulher tem capacidade financeira para emigrar, ora porque consegue autorização dos pais para ir estudar, ora porque vai acompanhar o marido que conseguiu arranjar emprego no estrangeiro.
Casta, família e tradição determinam que uma mulher deve reunir, obrigatoriamente, um conjunto de virtudes: uma filha nunca pode recusar o casamento arranjado pelos pais, pois tal seria uma suprema manifestação de ingratidão; a mulher vê o rosto do marido, pela primeira vez, no dia do casamento; uma mulher casada pertence ao marido e aos sogros; uma boa esposa deixa que o marido tome todas as decisões; uma boa esposa é flexível, obediente, sabe esconder a raiva e a mágoa. Manifestações de uma cultura falocrata que insiste que as mulheres não só devem ter marido como têm de se mostrar profundamente agradecidas por isso; que promove a prática do aborto dos fetos do sexo feminino porque não tolera que o herdeiro de uma família seja uma mulher. Mas, o que acontece quando a mulher se recusa a esconder a raiva e a mágoa? O que acontece quando a mulher decide tomar o curso da sua vida, constatando como é preciosa essa vida que a casta, a família e a tradição consideram imperfeita?
As mulheres protagonistas deste livro lutam, de uma forma velada ou não, contra estas imposições. Nem sempre têm êxito. As duas histórias passadas em Calcutá revelam que o contexto sociológico determina o curso das suas vidas, sejam elas mulheres humildes ou mulheres da casta superior a viver no melhor bairro daquela cidade. Em contrapartida, as restantes nove histórias, todas desenroladas nos Estados Unidos da América (Chicago ou São Francisco) colocam a mulher, mesmo casada, numa posição mais emancipada, mais capaz de determinar o rumo da sua vida. A ruptura com a tríade de poderes revelar-se-á inevitável, libertadora, catártica…