Notas de Leitura

Real, Miguel, O Último Negreiro, QuidNovi, 2006.

Real, Miguel, O Último Negreiro, QuidNovi, 2006.

È um romance histórico complexo, sabiamente construído e com uma prosa cheia, apanágio da escrita de Miguel Real. Começa com uma elucidativa, e deveras útil, tábua de personagens, umas ficcionadas outras verídicas, reveladora, por si só, da amplitude desta obra. Entre as duas margens do Atlântico Sul, em São Salvador da Baía e em São João Baptista de Ajudá, o Autor conta-nos a história de Francisco Félix de Sousa, o «último negreiro», desenrolada nestes dois espaços, entre os anos de 1797 e 1849.
Em finais do século XVIII, São Salvador da Baía, capital do Brasil colónia, é um espaço fervilhante, descrito como «pátria dos extremos (…) ou se manda ou se obedece, não há meio-termo, ou se está do lado da civilização ou contra ela, ou se é rico ou se é pobre, branco ou preto» [p.112]. Quem manda? Precisamente, os representantes do poder do rei de Portugal e os grandes negociantes ligados ao tráfico de escravos e à economia açucareira. Quem obedece? A vasta multidão de escravos, de alforriados e de gente pobre. O que é a civilização? O Absolutismo e a Igreja Católica. Quem está contra? Os adeptos dos ideais da Revolução Francesa, conjunto restrito de descendentes de portugueses que defendem a igualdade entre os homens, mas com os negros e os mestiços à parte. Cada um destes grupos é representado por uma galeria de personagens de características que oscilam entre a seriedade e a caricatura, sublinhando o Autor a profunda ironia das suas vidas. Francisco Félix de Sousa, nascido em São Salvador, tem um papel insignificante nesta sociedade, pela sua condição de pequeno intermediário no comércio de escravos entre a costa africana e a Baía. Na sequência de várias peripécias, um dia decide partir para África. Desembarca em São João Baptista de Ajudá, no Daomé, então principal centro abastecedor de escravos para as Américas. A sua adaptação ao espaço, às populações autóctones e a obtenção do cargo de administrador do forte de São João Baptista de Ajudá fizeram dele o maior e mais poderoso traficante de escravos daquela região, entre 1818 e 1828. Para além da figura rocambolesca de Francisco Félix de Sousa, esta obra revela-nos outros personagens, muito mais marcantes. Em concreto, os negros e mestiços forros que seguindo os ideais franceses tiveram a coragem de os tentar pôr em prática, com a Revolta dos Alfaiates em 1798. Aspiravam por uma capitania da Baía com um governo democrático e sem qualquer distinção racial. Eles foram: João de Deus Nascimento, Lucas Amorim Torres, Manuel dos Santos Lira, Luís Gonzaga das Virgens. Foi precisamente este último que proferiu as palavras «A Liberdade é a doçura da vida». Não podiam ter sido mais belas e sábias.