Notas de Leitura

Aslam, Nadeem, Uma Espera em Vão, Civilização Editora, 2009.

Aslam, Nadeem, Uma Espera em Vão, Civilização Editora, 2009.

De uma forma sábia e intensa, Nadeem Aslam, escritor paquistanês radicado em Inglaterra, transmite uma reflexão sobre os acontecimentos brutais que marcaram o Afeganistão e o Paquistão nos últimos trinta anos. Numa narrativa elaborada e minuciosa (este livro foi redigido ao longo de quatro anos), conta-nos a história trágica do médico inglês Marcus Caldwell. Por razões de natureza familiar, Marcus sente-se profundamente ligado a esta vasta região, outrora a província mais turbulenta do Império Britânico. Após o casamento com uma mulher afegã, Qatrina, estabelece-se na vila de Usha, próxima da cidade de Jalalabad, no leste do Afeganistão. Na sua casa criam a filha de ambos, Zameen, e constroem uma biblioteca com obras-primas, conhecidas e desconhecidas, escritas em várias línguas. A tragédia da guerra, primeiro com a invasão soviética, depois com a guerrilha entre os clãs afegãos e subsequente implantação do regime talibã, atinge Marcus e a sua família de forma inexorável.
A ação principal decorre em Usha nos dias de hoje. Marcus tem setenta anos e uma mão decepada. É um homem vencido pela vida mas com uma integridade e dignidade raras. Vive só, na casa que partilhara com a sua mulher e filha, e tem a biblioteca, outrora primorosamente colecionada, pregada no teto da habitação, numa “lembrança de alguém que perdeu a razão face à crueldade” (p.82). O que teria acontecido à sua mulher e filha? Um dia, aparece uma mulher russa, de nome Lara. Viajara em busca de informações sobre o paradeiro do seu irmão Benedickt, soldado soviético que participara na invasão do Afeganistão, e que fora visto com vida, pela última vez, na localidade de Usha. Numa narrativa cronologicamente irregular e de grande intensidade dramática, conhecemos a verdade sobre estas três personagens. Lentamente, preparando o leitor para a revelação dos acontecimentos, vemos como três vidas – Qatrina, Zameen e Benedickt – corporizam o horror e a selvajaria dos conflitos que deixaram toda uma população completamente fragilizada e sem quaisquer defesas face à crueldade e á degradação. Todavia, Marcus não perdeu a esperança de encontrar um neto perdido por entre os escombros de uma nação onde tudo tem uma história para contar acerca da guerra feita pelo fundamentalismo dos homens. Apenas as mulheres afegãs revelam discernimento e sabedoria pois “não desejam o Paraíso de Alá depois da morte, preferindo antes tornarem-se ribeiros e erva, a brisa e o pó. A terra que puserem por cima da sepultura delas, tomá-la-ão como o seu amante” (p.103).