Notas de Leitura

Garcia Márquez, Gabriel, O Outono do Patriarca, D. Quixote, 1995.

Garcia Márquez, Gabriel, O Outono do Patriarca, D. Quixote, 1995.

Foi uma obra que levou vários anos a ser redigida. Excessiva e difícil, revela plenamente a maestria que caracteriza o seu Autor. A segunda metade do século XX foi marcada, na maior parte dos países da América Latina, pela predominância de regimes ditatoriais com consequências tremendas para as suas populações. Garcia Márquez, com a peculiaridade da sua condição de escritor, lê e interpreta esta realidade política e social. O resultado é uma reflexão profunda sobre o poder e os seus mecanismos de perpetuação, sobre o ditador e a sua relação com a sociedade que o alimenta, com a sua cobardia, resignação e conformismo. Numa história que se desenrola num território imaginário, situado algures no mar das Caraíbas, e num tempo sem referências cronológicas, o leitor é confrontado com a figura de um ditador-patriarca «mais velho do que todos os homens e do que todos os animais velhos da terra e da água» (p.7), cuja vida foi, é e continuará a ser, a vida de um déspota solitário confinado a um palácio deveras bizarro: «de portas abertas dentro de cuja desordem descomunal era impossível estabelecer onde estava o governo» (p.11). Neste palácio, espaço onde o poder fez o seu covil, desenrola-se a atividade do ditador-patriarca, por entre a cobiça, adulação e servilismo daqueles que medravam à sua sombra. Essa atividade desdobrava-se por zelar pela ignorância da população civil, providenciando que em cada província fosse estabelecida uma escola gratuita para ensinar a varrer; pela leitura do jornal oficial onde todos os seus desejos estavam transformados em ordens devidamente promulgadas; pela acumulação e manutenção de uma fortuna pessoal propiciada pelos negócios do governo, pelos favores devidos e pela exploração de um sistema infalível para ganhar sempre a lotaria (p.55). Numa pátria feita pelo ditador-patriarca à sua imagem e semelhança, até o espaço foi mudado e o tempo corrigido pelos desígnios da sua vontade absoluta (p.132-133). E não faz tenção de morrer, pois «que morram os outros» (p.30). Transformado no ancião mais antigo da terra, vê desenrolar diante dos seus olhos um conjunto de peripécias em torno da iminência da sua morte. Na sequência de cada rumor sobre a sua morte, ele aparece vivo, e ainda mais autoritário, pronto para impor ao seu povo o destino que bem lhe aprouver…num governo de pesadelo, que se continuará a prolongar pelo tempo incontável da eternidade.