Notas de Leitura

Carrano, Patrizia, Iluminada. A história de Helena Lucrécia Cornaro, primeira mulher doutorada do mundo, Círculo de Leitores, 2003.

Carrano, Patrizia, Iluminada. A história de Helena Lucrécia Cornaro, primeira mulher doutorada do mundo, Círculo de Leitores, 2003.

No final do livro, a Autora tem o cuidado de explicar a principal característica desta obra. Não se trata de uma biografia ou de um ensaio sobre Helena Cornaro, a primeira mulher doutorada do mundo, mas sim de «um retrato que conjuga os caprichos do miniaturista com a plena liberdade da invenção» (pp.217-220). Contudo, a Autora teve o cuidado de pesquisar nas fontes mais diversas, escritas e iconográficas, relativas à figura e à época que retratou, de uma forma feliz, neste curioso romance que nos dá a conhecer a personalidade, a vida e a erudição desta mulher, nascida em Veneza no ano de 1646. Perceber a singularidade de Helena, implica perceber o seu contexto, espacial – a República de Veneza, a Sereníssima -, e familiar, -os Cornaro Piscopia, donos de uma das mais ricas bibliotecas daquela urbe. À semelhança de outras cidades da Península Itálica, Veneza albergara muitos manuscritos provenientes da antiga Bizâncio, reveladores da obra dos filósofos da Grécia Clássica, no «esplendor da sua língua e na finura do seu pensamento» (p.167). Um aspeto fundamental caracterizou a vida familiar de Helena: o seu pai permitiu-lhe que se consagrasse a uma vida de estudo, culminando no doutoramento obtido na Universidade de Pádua, em 1678. Trata-se, com efeito, de uma particularidade deveras interessante, uma vez que se estava numa época em que as mulheres instruídas eram olhadas com uma profunda desconfiança, incorrendo no escândalo e na condenação da sociedade. A mulher ideal seria ignorante, com capacidade de se fazer de tola (caso não fosse completamente estulta) e plenamente servil: ao pai, ao marido, à sua casa e à vontade do Altíssimo.
Helena vive uma existência cómoda e tranquila. Protegida pelos pais, orgulhosos do saber e erudição manifestados precocemente por esta sua filha, num ambiente culturalmente enriquecedor, sem quaisquer conflitos consigo própria…Mas, terá ela sido uma mulher imune às emoções do coração? À medida que a história se vai desenrolando, percebemos o significado das palavras do prólogo, quando a Autora nos fala do aajej, o vento do deserto do Norte de África que, por vezes, alterando a sua rota habitual, chegava a Veneza, com grande perturbação para a Sereníssima…