Notas de Leitura

Chatwin, Bruce, Na Patagónia, Círculo de Leitores, 2010.

A Patagónia tornou-se um destino turístico de moda, percorrido por viajantes apreciadores de itinerários cómodos e de rasto pisado. Este livro de Bruce Chatwin, escrito em 1987, representa uma antítese da massificação viageira dos dias de hoje. Uma outra forma de olhar o espaço, os habitantes e as suas particularidades. Surpreende-nos pela argucia e sentido de humor do Autor que não hesita em apelidar a sua viagem, pelo extremo sul do Chile e da Argentina, como «ridícula». Porquê? O seu fascínio pela Patagónia remonta a uma infância passada em Inglaterra durante a II Guerra Mundial. Pela sua distância em relação ao conflito bélico, a Patagónia só poderia ser, então, o lugar mais seguro à face da Terra. Mas também por uma importante referência familiar: a avó de Bruce Chatwin era prima do intrépido capitão Charles Amherst Milward, um marinheiro protagonista de uma fascinante odisseia e que, pelos finais do século XIX, se estabelecera em Punta Arenas.
Partindo de Buenos Aires, a viagem decorre sempre em direção a Sul. Ora viaja de comboio, ora usufruindo a boleia de condutores amigáveis, ora a pé. Impressionado pela solidão da paisagem e pelo clima agreste de um espaço que, pelas suas qualidades negativas, Charles Darwin achara irresistível (p.37). Do presente, o Autor transporta-nos para o passado, relatando as fascinantes histórias das indomáveis tribos do Sul do Chile, ou dos conquistadores espanhóis que, chegando àquela região no século XVII, vinham em busca de um eldorado escondido nos Andes Meridionais. Uma lenda que perdurou até ao século XIX, despertando a cobiça dos aventureiros do Texas e da Califórnia para quem a Patagónia era uma mera extensão do Oeste americano (p.99). O relato de acontecimentos insólitos prossegue com a odisseia dos pedreiros – livres franceses que quiseram ser os reis desta região, fazendo o Autor uma inevitável comparação com a famosa história de Kipling, O homem que queria ser rei. E, claro, as constantes referências a Fernão de Magalhães e aos relatos do famoso cronista António Pigafetta. Por todo o discurso perpassa a ideia fundamental de Bruce Chatwin: o fascínio pelo nomadismo, encarado como uma idade-de-ouro da espécie humana e que findara «quando os homens haviam deixado de caçar, se instalaram em casas e começaram a rotina do dia-a-dia» (p.280). Merecem referência o mapa inicial, uma cartografia do itinerário seguido, tão revelador da sua paixão pela geografia, e a inclusão, no final da obra, de uma pequena bibliografia para quem procurar outras perspetivas e histórias ainda desconhecidas desta vasta região.