Notas de Leitura

Buck, Pearl, As Três Filhas da Senhora Liang, Edição Livros do Brasil, 1969.

Buck, Pearl, As Três Filhas da Senhora Liang, Edição Livros do Brasil, 1969.

A escrita de Pearl Buck, representada numa vasta bibliografia, constitui um testemunho belo e sensível do olhar do Ocidente face ao Oriente. Este livro, inserido nessa linha narrativa, é uma reflexão sobre a China maoista, onde violência e tragédia foram uma realidade.

A protagonista é a Senhora Liang. Vive em Xangai e as suas três filhas residem nos Estados Unidos da América. Na sua juventude, Madame Liang fora apoiante de Sun-Yat-Sen, e integrara vários movimentos revolucionários que procuraram libertar a China dos seus costumes milenares: dos parentes idosos e do poder que exerciam sobre os mais novos, dos antigos magistrados e vice-reis, da velha imperatriz e dos seus eunucos corruptos (p.83). A instauração do regime maoista na década de 50 do século XX, na sequência dos inúmeros conflitos que opuseram as várias fações de nacionalistas chineses, trouxe uma total inversão dos valores sociais: «o céu e a terra mudaram de posição» (p.29). Quando os seus partidários chegaram a Xangai entraram como um exército silencioso, por terem os pés calçados de pano, e, nas palavras da protagonista, «eram camponeses e estavam coléricos. Não roubaram, não violaram, mas inflexíveis e severos como a maré cinzenta do mar, inundaram a cidade e apoderaram-se de tudo. Até da própria alma dos homens» (p.39). A Senhora Liang continua a ter uma vida cómoda. Mas só aparentemente. Um deslize, por mais pequeno que fosse, seria o suficiente para mergulhar no abismo do perigo. O regresso à China das suas filhas mais velhas, Grace e Mercy, contrariando os conselhos maternos, propicia o desenrolar dos acontecimentos. Pela experiência destas duas jovens revelam-se dois olhares, antagónicos entre si, sobre o que significa servir a nação. Em comum, o choque que cada uma delas experimenta perante a realidade política vigente. A tragédia acontece quando a juventude implacável, instigada pelo presidente Mao, invade todo o espaço, público e privado, dando azo aos seus instintos mais cruéis…

Uma visão e reflexão sobre uma sociedade onde o indivíduo e o coletivo estão em permanente tensão. Mas, por muito força que o coletivo assumisse, nunca conseguiria alterar a verdadeira natureza do homem, «essa natureza que existia, independente e isolada, em cada ser humano [porque] a paz só consegue prevalecer quando o indivíduo está saciado e em segurança, senhor do que é seu e a trabalhar para si» (p.206).