Notas de Leitura

Neruda, Pablo, Uma casa na areia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998.

Neruda, Pablo, Uma casa na areia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998.

Editado originalmente em 1966, este livro de Pablo Neruda escrito ora em prosa, ora em poesia, traduz, de forma exemplar, a contemplação e interpretação que o Poeta faz do mar e de uma casa (a sua) que está junto a ele. O mar, que banha a localidade costeira de Isla Negra no Chile Central, e a casa construída na areia, são os dois protagonistas que, numa sintonia perfeita, complementam a desejada solidão do Poeta. Para Pablo Neruda, Isla Negra representava o refúgio ideal que lhe permitia tornar-se “invisível” face ao mundo exterior. Da interação constante entre o Poeta, a casa e o mar, através da vivência rotineira do quotidiano, foi construído este precioso texto.

O mar é o Oceano Pacífico que de «tão grande, desordenado e azul, não cabia em sítio nenhum» (p.11). Por isso, diz-nos o Poeta, «o deixaram em frente da minha janela» (p.11). Esse velho oceano tem vida porque foi ele que «descobriu, rindo à gargalhada, os seus descobridores» (p.13). Esse velho oceano tem vida, porque tudo o que o Autor perde, a começar pela chave da sua casa, foi o mar que levou. Mas, sempre lhe devolveu aquilo que levou: «a chave branca da minha casa, o meu chapéu coberto de areia, a minha cabeça de náufrago» (p.10).

O mar torna o quotidiano salobre e invade a casa na areia, uma casa que o Poeta diz não saber quando “nasceu”. Apenas que a sentiu (e, de imediato, se encantou) através de um cheiro «a inverno marinho, misto de boldo e areia salgada, algas e cardos» (p.33), quando, pela primeira vez, a viu no meio daquelas solidões. O odor a sal é constante. Tudo invade, incluindo a alma do Poeta. Molda a paisagem, em cada estação do ano, pintando-a a cores: do cinzento agreste do inverno ao amarelo das pequeninas flores que, por entre as rochas, brotam na primavera. Uma paisagem longínqua, rude, mas plena de beleza e inspiração.

Mar, sal, ar…ganham vida perante os nossos sentidos. O ar gelado do inverno, o sal que habita dentro da casa, o mar que nunca adormece, cantando e batendo sem parar. Pede o Poeta que respeitemos o mar:

«Não o amarrem. Não o encerrem. Está ainda a nascer. Rebenta a água na pedra e abrem-se pela primeira vez os seus infinitos olhos.

Mas já de novo se fecham, não para morrer, mas para continuar a viver» (p.99).