Baricco, Alessandro, Seda, Lisboa, Quetzal, 2016.
Com uma escrita extremamente concisa e, na sua aparência, simples, este texto de Alessandro Baricco aborda de uma forma complexa a questão do choque entre as culturas europeia e oriental no século XIX. O protagonista desta história é Hervé Joncour, um modesto comerciante francês que se dedicava à compra e venda de ovos de bicho-da-seda. Residente na localidade de Lavilledieu e dotado de uma personalidade passiva, é descrito como «um daqueles homens que gostavam de assistir à própria vida, considerando imprópria qualquer ambição de viver» (p.10). A sua vivência rotineira era quebrada apenas quando, anualmente, se deslocava ao Mediterrâneo Oriental para adquirir os preciosos ovos. Um surto epidémico que afetou os bichos-da-seda, criados nas localidades do Egito e da Síria, é o motivo que levará o pacato Hervé Joncour a aventurar-se por outras paragens. Surge assim a hipótese de ir até ao Japão. Estava-se em 1861. Numa altura em que o Japão continuava muito retinente à entrada de estrangeiros para comerciarem livremente. Numa altura em que ainda não tinha sido aberto o canal do Suez. Apesar destas dificuldades, Hervé Joncour parte em direção ao fim do mundo: sempre pela Europa central e oriental, até chegar a Kiev, depois transpunha os Urais, entrava na Sibéria, e percorria a vastíssima estepe, alcançando o lago Baical que os habitantes daquela zona chamavam o mar (p.24). Depois, tinha de descer o curso do rio Amur, ao longo da fronteira chinesa, até ao oceano. Com o auxílio dos contrabandistas holandeses, conseguia desembarcar no litoral do Japão. Finalmente, calcorreava as estradas secundárias e chegava às aldeias escondidas nas colinas que, ilicitamente, vendiam os ovos de bicho-da-seda aos negociantes estrangeiros.
As quatro viagens que fará ao Japão, entre 1861 e 1864, vão mudá-lo para sempre. De todas elas, regressava diferente. A sua mulher e os seus vizinhos achavam que ele trazia consigo «qualquer coisa, talvez uma espécie de infelicidade» (p.92). Qualquer coisa que o destinava a morrer de saudade de algo que nunca iria conseguir viver (p.94). Contudo, o feito pacato de Hervé Joncour protegê-lo-á, conseguindo transformar tamanho sentimento numa «incontestável quietude», apanágio «dos homens que sentem que ocupam o seu próprio lugar» (p.106). Sem mais nenhuma outra necessidade, ansiedade ou inquietude… aparentemente…

