Notas de Leitura

Striano, Enzo, A Portuguesa de Nápoles, Lisboa, Quetzal Editores, 2005.

Striano, Enzo, A Portuguesa de Nápoles, Lisboa, Quetzal Editores, 2005.

Inteligente e elucidativa. Assim defino a nota do Autor, no final da obra, onde tem o cuidado de nos dizer que este livro é um romance «histórico» e «experimental» e não uma biografia. Afirma Enzo Striano que tomou, em relação à História, as liberdades postuladas por Aristóteles: «o historiador expõe aquilo que aconteceu, o poeta aquilo que pode acontecer» (p.457). Com efeito, o Autor, inspirando-se na realidade histórica, ampla e perfeitamente documentada, narra, de uma forma bela e intimista, aquilo que poderia ter acontecido a Leonor da Fonseca Pimentel, figura ímpar no panorama político e cultural do reino de Nápoles, ou das Duas Sicílias, no último quartel do século XVIII.

A história de Leonor é conhecida nas fontes documentais. Nascida em Roma, em 1752, numa família de ascendência portuguesa, Leonor, estabelece-se, ainda criança, no reino de Nápoles onde os seus pais procuravam o reconhecimento da sua nobreza, negado por razões políticas no Estado Pontifício. A sua odisseia, desde a partida de Roma, em 1760, até à sua dramática execução, em 1799, é contada pelo Autor, com uma beleza e uma exuberância, capaz de tudo nos descrever. A começar pela cidade. Nápoles tem vida própria. Paisagem e gentes impressionam, sobretudo as pessoas que «quando se movimentavam manifestavam uma energia assustadora. Como se o Vesúvio tivesse rebentado» (p.68). Uma cidade que «escondia uma inclinação pedagógica [porque] sem querer ensinar nada, obrigava a aprender, por entre banalidades, segredos apreciáveis» (p.72). Inserida na vida cortesã e, posteriormente, nas intensas tertúlias onde se discutiam as mudanças sociais e políticas trazidas pelas Revoluções Americana e Francesa, Leonor está atenta, estuda, reflete, escreve. Os seus escritos (poesia, ensaios) conquistam o respeito da intelectualidade coeva. Quando decidiu servir um projeto de transformação da sociedade, o seu trágico destino ficou traçado. Entendia Leonor que o verdadeiro reino deve assegurar «a administração e defesa dos direitos públicos da nação, e a conservação e defesa dos direitos dos cidadãos» (p.135, p199). Para conseguir este desiderato, era fundamental educar o Príncipe. Contudo, os Bourbon do reino de Nápoles entenderam estas ideias de uma forma bem distinta…E em 1799, Leonor, contando apenas 47 anos, morreria, enfrentando, com honra e dignidade, o mais infame suplício…