Notas de Leitura

Maalouf, Amin, Leão, o Africano, Quetzal Editores, 2008.

Maalouf, Amin, Leão, o Africano, Quetzal Editores, 2008.

O encontro entre Cristãos e Muçulmanos é uma temática constante na obra de Amin Maalouf. Apesar do antagonismo político-religioso, a ligação intercultural foi uma realidade que aconteceu nas mais variadas circunstâncias, ao longo dos séculos, e, particularmente, entre os habitantes das margens do Mediterrâneo. Esta obra assim o revela. Numa escrita bela, muito bem encadeada, Amin Maalouf conta-nos a história de um famoso geógrafo muçulmano, Hassan As-Wazzan, que, na primeira pessoa, narra as suas aventuras, vividas entre Granada, local onde nasceu em 1488, e Tunes, cidade onde terá morrido por volta de 1552. Para além de ter sido o autor de uma preciosa Descrição de África (escrita pouco antes da sua morte), foi, devido às vicissitudes de uma vivência errante, levado para Roma onde a sua condição de homem erudito despertou o interesse da Corte Pontifícia. Em 1520, e numa Basílica de São Pedro ainda por terminar, foi batizado pelo próprio papa Leão X. Ficou conhecido para a História como Leão, o Africano. Este cognome deveu-se ao facto de ter passado a sua vida entre o reino de Fez e o Cairo, no Norte de África, apesar do seu nascimento no Al-Andaluz, precisamente quatro anos antes da queda do reino de Granada tomado, em 1492, pelo exército dos Reis Católicos.

Ao longo desta obra, repartida por quatro livros, cada um dedicado a um espaço político e cultural distinto - Granada, Fez, Cairo, Roma - vemos o desenrolar da vida de um homem que nunca soçobrou perante as adversidades, tentando compreender o mundo à sua volta: «a minha sabedoria viveu em Roma, a minha paixão no Cairo, a minha angústia em Fez, e em Granada vive ainda a minha inocência» (p.11). As constantes travessias do deserto do Sahara fazem-no afirmar a sua condição errante: «sou filho da estrada, a minha pátria é a caravana, e a minha vida a mais inesperada das travessias» (p.11). Conhece todos os reinos, do Níger até ao Nilo, por fazer o caminho habitual das caravanas que partiam do Mali ou de Tombuctu em direção ao Cairo, no outro extremo do deserto saariano. Para além da sua vivência do mundo muçulmano – subsaariano, magrebino, mameluco, otomano -, a sua experiência em Roma, capital da Cristandade, acabará por, simbolicamente, fechar um círculo de conhecimento da vida e dos homens. No final do seu périplo é uma mundividência que se demonstra: «todas as linguagens, todas as orações me pertencem. Mas eu não pertenço a nenhuma. Não pertenço senão a Deus e à terra» (p.11). E quando chegar a sua morte, partindo para esse «local último» espera, finalmente, alcançar o Paraíso prometido, onde «ninguém é estrangeiro à face do Criador» (p.412».