Notas de Leitura

Campos, Fernando, A Casa do Pó, sl. Círculo de Leitores, 2000.

Campos, Fernando, A Casa do Pó, sl. Círculo de Leitores, 2000.

Os fundamentos deste notável romance histórico, explicados pelo Autor nas suas notas finais [pp.328-335], são apenas um dos traços da sua genialidade. A figura central desta obra é Frei Pantaleão de Aveiro, frade menor da Ordem de São Francisco e autor do Itinerário de Terra Santa, cuja edição data de 1593. Historicamente, nada se sabe sobre este religioso. Contudo, este seu escrito, redigido com vivacidade e profunda erudição, é revelador de alguns pormenores que despertaram a aguda curiosidade de Fernando Campos. Frei Pantaleão conta a sua viagem à Terra Santa, realizada algures durante o reinado de D. João III, e a sua passagem pelos principais portos do Mediterrâneo Oriental, sem esquecer a sua estadia em Roma onde priva com personalidades importantes, chegando a ser recebido pelo Papa Pio IV. São aspectos que chamaram a atenção do Autor: como é que um frade menor, de origens supostamente obscuras, se moveu com tanta facilidade pelos meios restritos do Vaticano? Esta peculiaridade levou a imaginação do Autor a estabelecer, já no âmbito do romance, a ligação entre o seu personagem principal e a conhecida intriga cortesã, passada no tempo do rei D. Manuel I, do amor infeliz entre Guiomar Coutinho, filha única do conde de Marialva, e João de Lencastre, futuro Duque de Aveiro.

O resultado da brilhante conjugação entre a erudita investigação do Autor e a sua escrita prodigiosa de romancista é precisamente este livro. Um romance, de linguagem cuidada, que nos revela um vivo retrato do Portugal do reinado de D. João III, da sua paisagem e das suas gentes, e de um mundo mediterrâneo onde as duas Cristandades (a do Ocidente e a do Oriente) se confrontam com o Império Otomano, no auge do seu poderio económico e político. A viagem de Frei Pantaleão é também uma viagem interior, no sentido da procura das suas raízes e do seu papel no mundo, tentando resolver o dilema da sua verdadeira identidade. Sem medo e sem constrangimento: “Despe o teu nome e a tua roupa! […] Despe a tua prosápia! Despe tudo o que aprendeste nos livros, nas escolas e nas catequeses! […] Só assim, nu, ao sol e ao vento, na bonança e na tempestade, sob as constelações das estrelas […] só assim tu saberás e sentirás que és apenas um homem no seio da Criação" [p.273].