Notas de Leitura

Morrison, Toni, Be Loved, Publicações Dom Quixote, 2009.

Morrison, Toni, Be Loved, Publicações Dom Quixote, 2009.

No final da Guerra da Secessão, a América do Norte ressurge como uma nação profundamente dividida, sobretudo, no plano racial. No início da década de setenta do século XIX, muitas cidades viram a sua população negra ser dizimada. Todavia, no Ohio, à semelhança de outros estados do Norte, os antigos escravos tinham a possibilidade de começar uma vida em liberdade. Como terão vivido esses tempos, como terão lidado com a dor de um passado recente, em que estavam totalmente à mercê do seu dono? A bondade ou maldade desse proprietário ditava o quotidiano do escravo: ora confinado ao trabalho sem sobressaltos, ora sujeito a todo o tipo de abusos. Esta é a questão central desta obra, escrita com a habitual maestria, sensibilidade e estética literária de Toni Morrison. No número 24 da Bluestone Road, em Cincinnati, Ohio, vive uma família de antigos escravos, oriundos do vizinho Kentucky: Sethe, a mãe, nem sabe onde terá nascido; a sogra, Baby Suggs, [quase] consegue viver os últimos anos da sua amarga existência amando o próximo; a filha de Sethe, Denver, uma criança silenciosa, metódica e triste. Também vive nesta casa o fantasma da outra filha, morta aos dois anos de idade, Beloved.

Com uma galeria singular de protagonistas, vivos e mortos, a Autora constrói uma história narrada entre um passado recente – a plantação de Sweet Home, no Kentucky – e o presente – o número 124 da Bluestone Road – em que se tentava constantemente esquecer o passado. Para Sethe, «o futuro era apenas uma questão de manter o passado à distância. A vida melhor era apenas não viver a vida que tivera antes» (p.65). Sethe e Denver, mãe e filha, constroem, cada uma per si, o seu mundo interior, e, em conjunto, constroem o seu mundo familiar, única e exclusivamente, dentro das quatro paredes de casa: «o que quer que estivesse a acontecer do lado de fora da [sua] porta não era para [elas]. O mundo está nesta sala (…) aqui é tudo o que existe e tudo o que precisa de existir» (p.243).

Esta é uma história dura, contada pelas vozes de três mulheres, com três perspetivas distintas: a da mãe, que não quer ser perdoada, a da filha-viva, que não sabe como viver, e a da filha-fantasma que, entretanto, se “materializara”, trazendo consigo todo o rancor que fora acumulando desde que, depois de uma vida tragicamente interrompida, “tomara conta da casa”…