Notas de Leitura

Folman, Ari; Polonsky, David, O Diário de Anne Frank. Diário Gráfico., Porto Editora, 2017.

Folman, Ari; Polonsky, David, O Diário de Anne Frank. Diário Gráfico., Porto Editora, 2017.

Editado sob o patrocínio da Fundação Anne Frank, entidade que desde há 50 anos trabalha em prol dos direitos das crianças de todo o mundo, este livro apresenta uma versão gráfica do nosso tão conhecido Diário de Anne Frank e com um resultado interessantíssimo. O desafio colocado aos seus dois Autores não podia ter sido mais difícil. Como transformar aquele texto único numa banda desenhada? Em nota escrita no final do livro, Ari Folman e David Polonsky, expressam as dificuldades que enfrentaram, designadamente, a escolha dos excertos do Diário a utilizar; e a metodologia adotada, tendo sido definido que cada trinta páginas do texto original dariam origem a dez páginas da versão gráfica. Foi um trabalho feito com a clara noção que, destinando-se esta obra a um público juvenil, são cada vez menos as crianças e jovens com hábitos de leitura porque foram «conquistados» pelo mundo dos ecrãs. O objetivo último desta versão foi, dizem-nos os seus Autores, preservar o espírito de Anne Frank em cada uma das vinhetas, pedindo ao leitor o seu perdão caso tenham causado algum dano ao texto original (pp.154-155).

Como conhecedora do Diário de Anne Frank, que li pela primeira vez há muitos anos, acho que o trabalho desenvolvido pelos Autores dignificou plenamente o legado de Anne Frank. A articulação entre o texto e as vinhetas foi deveras bem conseguida. O espírito, a essência do Diário estão aí, transmitindo-se a mensagem que Anne quis deixar. Por seu turno, os desenhos são muito bonitos e retratam, com inteligência e enorme sensibilidade, as personagens (com as respetivas vicissitudes), que habitaram aquele Anexo Secreto da casa com o número 263, sita à Prinsengracht, na cidade de Amsterdão, entre junho de 1942 e agosto de 1944.

Há uma página que gostaria de destacar, a 135. Trata-se de um excerto escrito já em 1944, poucos meses antes da sua prisão e posterior envio para os campos de concentração, em que Anne nos revela os seus sonhos: «decidi-me a levar uma vida diferente da das outras raparigas (…) o que estou a viver aqui é um bom princípio para uma vida interessante». Acompanha este pequeno texto a imagem daquilo que poderia ter sido Anne, já adulta, uma imagem comovente por nos transmitir o sonho da jovem adolescente que não se concretizou, devido à brutalidade de uma guerra que ceifou os sonhos e aspirações de Anne Frank e de muitas outras crianças e jovens suas contemporâneas.