Notas de Leitura

Cunningham, Michael, As Horas, Gradiva, 2013.

Cunningham, Michael, As Horas, Gradiva, 2013.

Mrs. Dalloway, o famoso romance de Virgínia Woolf, uma obra maior no panorama literário mundial, é o tema central de As Horas. Numa originalíssima sequência narrativa, desenvolvem-se as histórias de três figuras femininas, em três épocas e contextos distintos: Virgínia Woolf (Mrs. Woolf), a autora do romance Mrs. Dalloway; Laura Brown (Mrs. Brown), a leitora ávida de Mrs. Dalloway; e Clarissa Vaughan, apresentada pelo Autor como a versão moderna, de final do século XX, da personagem Mrs. Dalloway, e que numa soalheira manhã de junho vai comprar flores porque nessa noite dará uma festa em sua casa…

O elo de ligação entre as três mulheres e os seus dramas pessoais é precisamente esta famosa obra literária. Os capítulos dedicados a Mrs. Woolf descrevem-nos as angústias que Virgínia enfrentou no decurso da elaboração da história e da personagem de Mrs. Dalloway: a complexidade do seu processo criativo sentindo a escrita como um impulso tão frágil como um «ovo equilibrado numa colher» (p.87), a crescente insanidade que a afeta, isolada da vivência de Londres, numa casa onde gostaria de passar todas as horas do dia a escrever, mas constantemente dominada pelo «pavor das suas quedas na dor e na luz» (p.73). Se Mrs. Woolf gostaria de passar todas as horas do seu dia a escrever, Mrs. Brown gostaria de passar todas as horas do seu dia a ler. Têm em comum, autora e leitora, a loucura suicida. Escrever e ler são as únicas vias possíveis para continuar as suas vidas. E se Mrs. Woolf sucumbe, Mrs. Brown sobrevive, mas da forma mais dura possível, a uma frustrantíssima vida familiar, com um marido que não ama e um pequeno filho, criança precocemente densa e melancólica, com o qual, apesar de amar puramente, não consegue estabelecer uma ligação.

Qual a relação com Clarissa Vaugham, a personificação de Mrs. Dalloway, versão fim de século XX? A revelação é, no mínimo, surpreendente. Clarissa Vaugham cativa-nos com o seu bom-senso, com a sua capacidade de amar a vida e o mundo à sua volta e porque, ao contrário de Mrs. Woolf e de Mrs. Brown, tem a sanidade suficiente para intuir o que verdadeiramente dá alento à vida: «uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos» (p.221).