Notas de Leitura

Ribeiro, Aquilino, Cinco Réis de Gente, Bertrand Editora, 2016.

Ribeiro, Aquilino, Cinco Réis de Gente, Bertrand Editora, 2016.

Com um interessantíssimo prefácio de Luísa Costa Gomes e um valioso depoimento do neto do Autor, Cinco Reis de Gente é uma saborosa viagem pela infância de Aquilino Ribeiro e ao universo que a define: o sonho, porque, diz-nos Aquilino, ser criança é ser sonhador (p.27).

Ler Aquilino é, no mínimo, desafiante, pois a forma como trabalha a nossa preciosa língua portuguesa exige ao leitor disciplina e persistência. Como afirma Luísa Costa Gomes, estamos perante «o português de gema, o português feito à mão, vindo dos tempos em que havia realidade nas coisas» (p.7). A geografia da sua infância tem um papel preponderante: as Terras do Demo, no distrito de Viseu, bem no coração do Portugal, ganham vida nestas páginas ao longo das quais Aquilino nos revela: a família, «muito amor e poucos afagos» (p.31), o mano mais novo, Quinzinho, de «face suja mas mimosa riscada pelo monco (…) gordo como uma lagarta que lhe escorregava para o lábio» (p.22), a sua primeira visão do mundo-monstruoso, espaço além-casa paterna, no bulício da feira de São Francisco, «onde acodem os esfomeados e comilões deste mundo e do outro a matar a fome porcina» (p.60). A frequência da escola e a liberdade das passeatas pelos caminhos, à «lei da natureza», desempenham um papel crucial no desenvolvimento do menino que quer ser homem. A vida de aluno primário não era má de todo, assim nos diz o Autor, mas, em contrapartida, era o trajeto casa-escola, feito com «saborosíssimo deleite» (p.70), que irá despertar nele a ânsia pela liberdade porque, confessa, «precisava de ar livre, de largar pelos cerros, de descobrir terra» (p.104), como dos carinhos de sua Mãe. Ao longo do texto, Aquilino frisa o seu sentimento mais profundo, aquilo que mais preza, acima de grandezas, glória, amor, acima do próprio pão para a boca… é a liberdade (p.103).

Mas, este precioso texto de Aquilino ultrapassa o relato tocante sobre a infância passada nas Terras do Demo. Acaba por ser, simultaneamente, um testemunho da vivência social e política de um Portugal onde o caciquismo desempenhava um papel primordial no sistema eleitoral do Constitucionalismo Monárquico. As peripécias do Pai e do Padrinho do Autor, na divulgação do programa do partido progressista, são um regalo onde o olhar arguto de Aquilino nada deixa escapar…Numa viagem pela infância do menino que promete portar-se como um homem para um dia ser alguém e o orgulho dos seus pais (160).