Notas de Leitura

Agualusa, José Eduardo, A rainha Ginga. E de como os africanos inventaram o mundo, Quetzal Editores, 2014.

Agualusa, José Eduardo, A rainha Ginga. E de como os africanos inventaram o mundo, Quetzal Editores, 2014.

Para quem esteja familiarizado com a história de Angola, a rainha Ginga é uma personagem especialmente conhecida. Dela já se contou e escreveu muito…A sua postura de forte combatividade perante o poder português, estabelecido na região circundante de Luanda desde os finais do século XVI, foi absolutamente marcante no contexto do confronto, no Atlântico Sul, entre os portugueses e os flamengos devido à junção das coroas de Portugal e de Espanha, entre 1580 e 1640.

Em torno deste conflito determinado pelo controlo do tráfico negreiro entre Luanda e o Brasil, o Autor constrói um romance surpreendente narrado pela voz de um padre jesuíta, Francisco José de Santa Cruz, natural de Pernambuco, e que vai para Luanda, por volta de 1620, com uma especial missão: desempenhar o papel de secretário, conselheiro e tradutor da rainha Ginga, por ser um homem «ilustrado na ciência de desenhar palavras» (p.19). Ginga é uma mulher que se destaca: pelo aparato dos seus trajes e da larga corte que a acompanha; pela soberba na defesa dos interesses do rei do Dongo, o seu irmão; por estar pronta para combater pela sua liberdade e pela dos seus súbditos, «sustentada pelo sopro poderoso de todos os ancestrais» (pp.35-36). A sua estratégia política leva-a ao casamento com o temível e poderoso Jaga Caza Cangola, aquele de quem se dizia que «de noite se transformava num leão e sob essa aparência corria os sertões fazendo muita carnificina» (pp.90-91). Esta aliança matrimonial fez com que Ginga ficasse a controlar o interior de Angola, desde Luanda até às Pedras de Pungo Andongo, assim como a circulação pelo grande Quanza (p.189). A narrativa do padre Francisco José de Santa Cruz ultrapassa a conjuntura política, e os seus protagonistas, para entrar num plano mais pessoal: o de um homem profundamente dividido entre os dois lados do Atlântico Sul e, à medida que os acontecimentos se sucedem, cada vez mais distante de Deus. Em ambos os planos narrativos, seja o dos acontecimentos políticos, seja o da vivência de Francisco de Santa Cruz, perpassa uma ideia crucial: este é um território cercado pela ganância dos homens e onde a crueldade das suas ações se sucedem, com muitas voltas e reviravoltas do destino …sabendo que para aqueles que ainda têm fé não existe final – tudo são começos (p.243).