Notas de Leitura

Frazier, Charles, O Regresso do Soldado, Asa Editores, 2000.

Frazier, Charles, O Regresso do Soldado, Asa Editores, 2000.

Charles Frazier escreveu um romance notável. Enquadrado historicamente pela Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865), este texto conta-nos uma bela história de amor entre dois jovens: Inman e Ada. O percurso, sentimentos e vivências dos amantes são trabalhados, com uma riqueza de pormenor, em capítulos alternados, num verdadeiro hino à cultura e geografia dos Apalaches, na região ocidental da Carolina do Norte.

Inmam é um desertor da guerra. Quer regressar a casa, situada num local idílico nas montanhas, e à mulher amada, de quem tem apenas vagas recordações. O percurso de Inman é físico e espiritual. Caminhando sinuosa e dolorosamente, em jornadas sucessivamente perigosas, Inman pretende atingir a limpidez e pureza da sua montanha, por oposição às planuras do litoral, sujas e impuras, local de partida depois de uma fuga bem-sucedida do hospital militar onde estava internado. A viagem de regresso ao lar é também uma forma de penitência, de tentativa de salvação da alma do guerreiro causador de morte e destruição. É o percurso solitário de um homem vazio, consumido pela raiva e pela amargura, só com um pensamento: atingir a montanha e a mulher amada. Ada é a mulher que, nascida num meio privilegiado de Charleston onde acedeu a uma instrução «para lá dos limites considerados sensatos paras as mulheres» (32-33), se adaptará, pela força das circunstâncias da guerra, à região das montanhas. Educada para ter uma opinião própria sobre arte, política e literatura, constata que nenhum desses dons terão qualquer aplicação perante o facto de, depois da morte do seu pai, ter ficado sozinha na posse de uma quinta e sem ter ideia sobre o que fazer com trezentos acres de terra. Tal como Inman, vê neste espaço, rude e agreste, uma limpidez física e mental: tudo o que podia ver à sua volta era aquilo com que podia contar. A via para a felicidade seria manter-se fiel à sua natureza e seguir o seu próprio caminho (63).

Ele quer regressar a casa, ela sonha com o seu regresso. Será que se reconhecerão, depois das depredações causadas da guerra? Duas caminhadas – homem e mulher – atingidos pelos acontecimentos de uma forma distinta, mas que os levará ao encontro derradeiro: um par de amantes numa clareira arborizada, quase isolada da humanidade. Será possível continuar com tantas cicatrizes a marcar o vazio?