Notas de Leitura

Mieszkowska, Anna, A história de Irena Sendler. A Mãe das crianças do Holocausto, Livros do Brasil, 2004.

Mieszkowska, Anna, A história de Irena Sendler. A Mãe das crianças do Holocausto, Livros do Brasil, 2004.

A invasão da Polónia, em 1 de Setembro de 1939, marcou o início da II Guerra Mundial. Em Varsóvia, sua capital, era estabelecida a sede do poder nazi que, rapidamente, mostrou a violência brutal das suas intenções para com o povo polaco e, sobretudo, para com a vasta comunidade judaica que habitava aqueles territórios desde tempos imemoriais. As leis do invasor ficaram patentes, logo no dia 1 de Dezembro desse ano: todos os judeus eram desapossados dos seus bens, empregos e negócios; eram obrigados a usar a braçadeira com a estrela de David; eram obrigados a habitar uma determinada zona da cidade – o gueto – que, em 16 de Novembro de 1940, ficou fechada ao exterior. Tinha cerca de 400.000 habitantes. Os judeus ficaram proibidos de sair do gueto e os polacos de lhes prestar qualquer auxílio, sob pena de serem sumariamente executados pelos nazis. Este é o contexto histórico onde a protagonista desta obra – Irena Sendler – desenrolou a sua ação: a de uma mulher que, munida de uma coragem infinita, não ficou indiferente ao sofrimento da comunidade judaica. Esta obra encerra uma outra particularidade: a de mostrar o Holocausto na perspetiva daqueles que empreenderam esforços para salvar as vítimas condenadas à morte pelos nazis.

O livro tem o cuidado e o rigor de colocar, e responder, a várias questões, fundamentais para percebermos a protagonista e, simultaneamente, os motivos que justificam a sua história. Quem era Irena Sendler? Como foi moldada a sua personalidade destemida? O que fez durante a II Guerra, e, em particular, perante a comunidade judaica? Nascida em Varsóvia, em 15 de Fevereiro de 1910, Irena Sendler aprendeu do seu pai, médico de profissão, os dois princípios que nortearam a sua vida adulta: que as pessoas apenas se dividem em boas e más pois a nacionalidade, a religião ou a raça, nada significam; que temos o dever de oferecer ajuda a quem dela necessitar (pp.20-21). Estes princípios condicionaram a sua escolha profissional no âmbito do serviço social e, no âmbito político, a sua atividade como membro da Resistência Polaca durante a ocupação nazi: em concreto, ajudando muitas crianças judaicas a abandonar o gueto e a viver «em segurança» no lado polaco (pp.68-69). A organização para a fuga das crianças principiou na sequência dos terríveis acontecimentos de Julho de 1942 quando as unidades das SS e os destacamentos ucranianos deram início ao transporte dos judeus do Gueto de Varsóvia para Treblinka, onde foram assassinados. Perante tamanha crueldade, Irena Sendler agiu. Devido ao seu trabalho clandestino foram salvas 2.500 crianças judias. As mais pequeninas eram integradas em famílias polacas de acolhimento, as mais velhas iam para as florestas auxiliar a Resistência. Foi um resgaste terrivelmente doloroso: as mães dos meninos, confrontadas com a desgraça iminente, queriam pô-los a salvo. Uma decisão que só o amor incondicional de uma mãe pelo seu filho pode justificar. De tal forma que, para Irena Sendler, os verdadeiros heróis e heroínas da guerra foram os pais e as mães que entregaram os seus filhos a desconhecidos com a esperança de sobrevivência. Neste ponto, o livro abre uma outra narrativa, também de extrema importância: o que se passou com estas crianças que conseguiram sobreviver? Estas crianças, que se tornaram adultos, trazem com elas o «estigma das experiências do tempo da guerra» (p.200). A incapacidade de aceitação da morte dos seus pais e restantes familiares, a constante interrogação – porque fui o único a sobreviver -, a sensação de desenraizamento, são questões que a autora tem o cuidado de analisar.

Trazer ao conhecimento o testemunho daqueles que tiveram a coragem e a dignidade, como a nossa protagonista, foi algo que sucedeu apenas com as mudanças políticas que se deram na Polónia, após 1989. Porque, durante muito tempo, estes assuntos ficaram submergidos: «era como se esconder judeus fosse algo vergonhoso» (p.221). Este livro tem o mérito de registar o relato de Irena Sendler que, com rigor e minúcia, nos dá importantes informações sobre o Gueto de Varsóvia e a Resistência Polaca. Uma fonte histórica sobre este período sombrio e cruel, cujo registo é fundamental para que não haja esquecimento do passado recente, sobretudo quando os ventos da intolerância voltaram a assolar o Leste Europeu.