Notas de Leitura

Gaskell, Elizabeth, Norte e Sul, Relógio de Água, 2016.

Gaskell, Elizabeth, Norte e Sul, Relógio de Água, 2016.

Aquando o prefácio da primeira edição, em 1855, Elizabeth Gaskell entregou esta sua história à «gentileza do leitor». Hoje, volvidos tantos anos, esta leitora atenta «agradece» à autora por ter realizado uma tão complexa descrição literária do importantíssimo fenómeno histórico que foi a Revolução Industrial inglesa. Norte e Sul é uma obra que lê e interpreta as profundas mudanças económicas que a Revolução Industrial provocou na sociedade britânica do século XIX. Em simultâneo, desenvolve o clássico romance vitoriano, onde a história de Margaret Hale e do Sr. Thornton exprime os constrangimentos e os preconceitos de uma época marcada pela diferenciação entre as classes sociais.

Norte e Sul estão em antagonismo ao longo das páginas deste livro. O Sul é representado pela localidade de Helstone, no Hampshire, local idealizado «como uma aldeia num poema» (p.16), em que a vida decorre tranquila no presbitério de província onde o pai de Margaret exerce. Contudo, este torna-se um dissidente da Igreja Anglicana e decide partir para Norte, para uma nova vivência, acompanhado pela família. O Norte, representado por Milton, cidade industrial do Darkshire, surge como um espaço constantemente coberto por nuvens escuras, «da cor de chumbo, suspensas no horizonte» (p.65-66). Revela-se uma cidade industrializada, onde a uniformidade é a regra: nas casas, pequenas e feitas de tijolo, todas iguais umas às outras, na proliferação de fábricas, nos seus passeios apinhados de gente, e nas suas estradas retas e pejadas de veículos que transportam o algodão, em matéria-prima ou já transformado em tecido.

É uma Inglaterra em mutação que a autora descreve de forma quase gráfica e que analisa com precisão quase sociológica. A divisão e o confronto entre patrão e operário são corporizados no Sr. Thornton e no Sr. Higgins, respetivamente. A leitura que Elizabeth Gaskell faz do conflito laboral, e das consequências desumanas desta aceleração económica, é de uma riqueza extrema. Ao mesmo tempo, denota um constante sentimento de esperança de que, um dia, as duas classes consigam falar de “homem para homem”, de coração aberto. A este propósito, mencione-se o capítulo XXVIII onde o diálogo filosófico entre Mr. Hale, o pároco dissidente, e Mr. Higgins, o operário descrente, nos transmite o pensamento utópico da autora e a crença numa sociedade que deve procurar o bem comum e não apenas em prol de uma classe em confronto com outra.