Notas de Leitura

Rahman, Zia Haider, À luz do que sabemos, Quetzal Editores, 2016.

Rahman, Zia Haider, À luz do que sabemos, Quetzal Editores, 2016.

Com uma narrativa surpreendente, difusa e algo exigente para o leitor, Zia Rahman conta-nos o reencontro de dois amigos que não se viam há muitos anos. Em setembro de 2008, numa casa do bairro londrino de South Kensington, o jovem Zafar, natural do Bangladesh, e o narrador, seu contemporâneo de origem paquistanesa, encetam um longíssimo diálogo onde, à “luz do que sabem” discorrem sobre várias esferas do conhecimento: história, matemática, religião, literatura, política. Nesse ano marcado pelo início da crise financeira, os dois amigos, matemáticos de formação e com desempenho profissional no mundo da alta finança, fazem um balanço das suas vidas pessoais. Através deste fecundo diálogo, a história de Zafar, um homem marcado pela dor insanável do exílio, assume protagonismo porque simboliza, nas palavras do narrador, “a história do desentendimento entre nações, a guerra no século XXI, o casamento na aristocracia inglesa e o amor à matemática” (p.16). São estas as componentes que integram a narrativa de Zafar. Em primeiro lugar, a guerra entre o Paquistão e o Bangladesh, ocorrida em 1971. Zafar nasceu nesse mesmo ano numa remota província daquele jovem país, em circunstâncias particularmente trágicas. Emigra para Inglaterra, ainda criança, e os seus excecionais dotes de estudante levam-no a frequentar o ensino superior em Oxford. Uma aparente bem-sucedida trajetória profissional, levá-lo-ia a participar numa missão das Nações Unidas em Cabul, no ano de 2002. A sua visão duma guerra do século XXI é destituída de qualquer hipocrisia: “era um tempo em que os conselheiros [das Nações Unidas] abundavam em Cabul, quase tantos como os cães vadios em Mumbai” (p.38). Mas qual fora a sua motivação para integrar uma missão daquela natureza? Apenas uma mulher, Emily, a jovem aristocrata inglesa por quem desenvolveu uma relação doentia, totalmente bloqueada pelo preconceito social. A impossibilidade desta união é causadora de sofrimento e, consequentemente, de uma desconexão do mundo. Profundamente desiludido, Zafar conclui que a sua paixão pelo conhecimento, em geral, e pela matemática, em particular, não foi capaz de produzir as respostas às suas interrogações sobre a condição humana. Negou-lhe aquilo que, no seu mais íntimo, sempre desejou: “encontrar o chão de uma pátria, algures, e desenvolver nele [as suas] raízes” (p.735).