Notas de Leitura

De Waal, Edmund, A Lebre de Olhos de Âmbar, Porto, Sextante Editora, 2012.

De Waal, Edmund, A Lebre de Olhos de Âmbar, Porto, Sextante Editora, 2012.

A leitura desta fascinante obra, cujo autor desconhecia, deveu-se às importantes referências, nomeadamente, o facto de ter ganho o Ondaatje Book Award em 2011, para além das excelentes críticas expressas em prestigiados órgãos de comunicação social de língua inglesa. Edmund De Waal propõe-nos uma viagem no espaço e no tempo, tendo como ponto de partida uma colecção de pequenas esculturas japonesas do século XIX, conhecidas como netsuke. Essa colecção, que o autor herdou do seu tio-avô Iggie, é o pretexto para nos desvendar a história da sua família, os Ephrussi, judeus originários de Odessa e que, graças ao próspero comércio dos cereais da Ucrânia, conseguem estabelecer-se em duas importantes cidades da Europa de Oitocentos, Paris e Viena. Analisando minuciosamente cartas, diários, romances, poemas e recortes da imprensa da época, testamentos, listas e anotações avulsas, o autor seguiu o rasto dessa família, em concreto, do ramo estabelecido em Viena e do qual é seu directo descendente. Através da viagem e do olhar de Edmund De Waal, somos confrontados com dois fascinantes níveis de análise e narrativa: a macro-história, onde seguimos os principais aspectos da evolução política e social da Europa, desde os tempos de prosperidade dos finais do século XIX até à eclosão das duas guerras mundiais, no século XX. Neste vasto contexto, vemos o desenrolar de uma micro-história, a da família Ephrussi, perfeitamente integrada na evolução da conjuntura europeia mas que, em 1938, viu a História não estar do seu lado [p.216]. Com efeito, nesse ano a Áustria foi anexada pelo III Reich. Consequentemente, a família viu-se perseguida pelo terror nazi, à semelhança de toda a comunidade judaica e de todos os opositores do regime nacional-socialista. Em 23 de Abril de 1938, a Gestapo entrou no Palácio Ephrussi, situado no coração de Viena e símbolo do poder e prosperidade dos seus proprietários. Estes seriam seviciados, expulsos e despojados de tudo o que até então lhes pertencera. No decurso deste cruel processo, o valioso espólio do palácio seria confiscado pela Gestapo. Só restou a colecção dos netsuke, escondidos e guardados por uma leal servidora, num verdadeiro acto de resistência ao apagar da memória [p.255]. Tal como este livro, de escrita elegante e sensível, uma justa homenagem do autor aos seus antepassados.