Notas de Leitura

Buck, Pearl – Preconceito Racial, Lisboa, Editora Livros do Brasil, 2004.

Buck, Pearl – Preconceito Racial, Lisboa, Editora Livros do Brasil, 2004.

Belo, profundo, complexo. São palavras que descrevem este livro de Pearl Buck cuja ação tem lugar na India, num arco temporal que vai de meados do século XIX até ao dealbar da época da contestação liderada pelo Mahatma Gandhi. Numa escrita que permite visualizar, com quase perfeição, a paisagem indiana e a constante «atmosfera de mistério sobre a terra» (p.138), e que nos permite sentir «a profunda inquietação que havia no coração da India» (p.251), a autora conta a história de três gerações de homens americanos, da família MacArd, que estabelecem uma relação, cada um per si, com aquele país. Em comum, um (in)sincero projeto de missionação cristã e sua implementação em território indiano.

A história inicia-se com a viagem, a Bombaim e Puna, do velho MacArd, acompanhado pelo seu jovem filho David. A diferença entre pai e filho é visível nos sentimentos que vão desenvolvendo enquanto percorrem o seu cómodo trajeto de abastados viajantes ocidentais. Se o pai sente repulsa pela miséria encontrada, a par de uma ideia de superioridade da cultura ocidental e da religião cristã, o filho David revela alguma empatia com aquele espaço, por ter confraternizado com um jovem indiano, aquando da sua passagem por um colégio de Inglaterra. David, por motivos de um infortúnio amoroso, partirá para a India, para dar início ao projeto paterno de construção de uma Escola de Teologia Cristã naquele território. Era David um verdadeiro missionário ou estaria apenas movido (in)conscientemente pela ambição e glória pessoais? A prática missionária cristã na India é continuada e, sobretudo, concretizada pelo seu filho Ted. Nascido em Puna e educado na América do Norte, regressa à India no início da idade adulta, um regresso que sente como o começo da sua própria vida. A sua viajem pelas remotas localidades, por se recusar a ficar circunscrito a Bombaim e Puna, permitir-lhe-á, ao longo desse percurso duro e afastado dos itinerários dos viajantes ocidentais, constatar que já nada havia entre ele e a India. Era, finalmente, um homem adulto, capaz de constatar a hipocrisia do pai, recolhido na confortável Missão em Puna e confraternizando mais com o governador britânico do que com os indianos. Ted assume a missionação “in situ”: instala-se numa pequena e remota aldeia nas montanhas, na companhia da sua jovem esposa, também americana e nascida em solo indiano. Aparentemente, estão enraizados. A sua vida de missionários decorrerá placidamente. Até à chegada do momento em que tudo aquilo que tinham apregoado será, finalmente, posto à prova: amar a India seria o mesmo que amar as pessoas e aceitá-las como suas semelhantes?