Notas de Leitura

Rawicz, Slavomir, Rumo à Liberdade, Editorial Presença, 2012.

Rawicz, Slavomir, Rumo à Liberdade, Editorial Presença, 2012.

«Há uma coragem que floresce na pior das adversidades» (p.88). Esta frase traduz, em absoluto, a essência da história narrada neste livro. O seu protagonista, e autor, era, em 1939, um tenente da cavalaria polaca, mobilizado contra os alemães, na zona ocidental da Polónia. Tendo o exército deste país colapsado frente às forças do III Reich, o tenente Rawicz tentou voltar para sua cidade natal – Pinsk – junto à fronteira russa. Como militar derrotado, qual seria o seu futuro próximo? Prisioneiro de guerra dos nazis ou sujeito ao poder soviético, cuja influência no leste da Polónia era uma realidade até ao início da II Guerra Mundial? Qualquer um dos cenários teria, inevitavelmente, consequências tremendas. Assim aconteceu. Em 1940, encontrava-se prisioneiro em Moscovo, sob acusação de ter cometido atos de espionagem contra a União Soviética. O NKVD (polícia secreta soviética) tinha a convicção de que qualquer polaco, com instrução e residente junto à fronteira com a Rússia, era inevitavelmente um espião a trabalhar «furtivamente» contra a «Libertação Russa» (p.15). A condenação a 25 anos de trabalhos forçados na Sibéria seria o desfecho inevitável deste “processo”. No ano seguinte, Rawicz, juntamente com outros milhares de desgraçados, dava entrada no Campo Número 303, localizado a norte do rio Lena, na Sibéria do Norte. A ideia de fugir deste local medonho começou a desenvolver-se, logo à sua chegada. Porque, um jovem não capitula facilmente. Esta coragem, associada a um forte espírito de solidariedade, proporcionou uma espetacular fuga do Gulag. Pois Rawicz não estava só: conseguiu reunir à sua volta mais seis notáveis homens que, oriundos de distintas geografias e com percursos igualmente distintos, partilhavam experiências semelhantes de horror e miséria sob alçada do NKVD. Para onde fugir? A vastidão daquele território era apavorante. Mas, eis que escolhem a solução mais difícil, menos óbvia e, por isso, a mais segura: a fuga rumo ao Sul. A extremidade noroeste do imenso lago Baical seria a rota de referência para, percorrendo a sua longa costa ocidental, sair da escravidão da Sibéria. Numa noite da Primavera de 1941, de neve abundante e sem holofotes nas torres de vigia do campo, sete intrépidos homens fugiram do Campo 303. Atravessaram o rio Lena, em direção a Sul. Sempre para Sul, caminhando de noite e descansando de dia, a sua odisseia levá-los-ia a atravessar a via férrea transiberiana, a Mongólia e o infernal deserto do Gobi, o Tibete… até atingirem a liberdade, no nordeste da India, onde chegariam, na Primavera de 1942, apenas quatro dos sete fugitivos. A descrição desta imensa e terrível viagem é deveras apaixonante para o leitor que, com a ajuda do mapa que consta no início do livro, vai seguindo o percurso e as vidas destes «viajantes». Para além do testemunho do horror dos Gulags, o relato desta odisseia, geográfica e humanamente detalhada, é também um testemunho da profunda amizade e solidariedade que se vai tecendo entre aqueles que, juntos no infortúnio, se recusam a abdicar da sua dignidade e da sua humanidade.