Notas de Leitura

Petrowskaja, Katja – Talvez Esther, Quetzal Editores, 2015.

Petrowskaja, Katja – Talvez Esther, Quetzal Editores, 2015.

Revela-nos a autora uma importante particularidade sobre si própria: o seu pensamento é em russo, a sua escrita em alemão e, nesta movimentação linguística (e, não menos importante, de perspetivas), procura conhecer a história dos seus antepassados (p.98). Nascida e criada em Kiev, no início da década de 70 do século XX, Katja Petrowskaja teve a educação típica da URSS: criada na «família dos povos irmãos da União Soviética» onde todos são parecidos uns com os outros, e todos tinham de aprender a mesma língua materna (pp.44-45). Do passado recente, marcado pela II Guerra Mundial, nada estava esquecido, com especial enfase para a memória do milhão de vítimas do cerco de Leninegrado. Perante esse passado, a autora reflete com perspicácia: «com a sua verdade patente e as mentiras escondidas, exortavam-nos a não esquecer nada nem ninguém, e assim esquecemos quem e o que estava esquecido» (p.34). É sobre um particular esquecimento – o da comunidade judaica da Europa de Leste - que a autora constrói este livro. Com uma narrativa peculiar, fragmentada, e com momentos de fino humor, é-nos descrita a sua procura pelas origens familiares, dispersas por várias cidades como Viena, Varsóvia e ainda mais para leste, «talvez só para [lhe] legar a língua russa» (p.9).

Dos seus antepassados, a autora não sabia quase nada. Precisa de construir a sua árvore de família para «colmatar a falha, sarar o sentimento de perda» (p.22). É o início daquilo que designa «o absurdo da viagem», espacial e temporal, onde acabará por descobrir que o seu antepassado mais remoto, de que existe conhecimento, chamava-se Schimon Heller e fundou, em Viena, na primeira metade do século XIX, uma escola para crianças surdas-mudas; ou ainda que o seu nome de família original era Stern, depois alterado quando os bolcheviques chegaram ao poder. Mas, é no capítulo 5 que este livro atinge a sua plenitude como reflexão sobre a complexidade do processo de construção da memória do passado recente: os terríveis acontecimentos de Babi Iar, no final de setembro de 1941, quando toda a comunidade judaica de Kiev foi assassinada sob o comando das SS e com a colaboração da polícia da Ucrânia Ocidental. Entre as vítimas, encontravam-se as bisavós paternas da autora, uma chamada Anna e a outra, talvez Esther. Com esta narrativa reflexiva podemos apreender três realidades: que o massacre foi oficialmente documentado através do sucinto ofício do comandante do destacamento das SS estacionado em Kiev; que existiram inúmeras testemunhas que, escondidas atrás das cortinas das suas casas, viram os seus vizinhos, amigos e conhecidos, em plena luz do dia, percorrendo, pelas ruas da cidade, o «interminável cortejo do seu próprio enterro» (p.159); e que se seguiu, durante anos, um silêncio ensurdecedor sobre estes acontecimentos, nunca tendo havido, por parte da autoridade soviética, qualquer interesse em investigar aquele passado .

Hoje, quando existe conhecimento da história, e Babi Iar já não fica nos arrabaldes tendo sido «engolida» pela grande Kiev, a banalidade do local é a realidade visível. Quando a autora visita o lugar onde jazem as suas bisavós, interroga-se, perplexa e amargamente: «Foi aqui? Há pessoas passeando, conversando, gesticulando ao sol. Para mim, é como se estes que passeiam e eu nos deslocássemos em ecrãs diferentes. Porque não veem elas o que eu vejo?» (p.157-159).