Notas de Leitura

Jordan, Hillary – As Lamas do Mississípi, Edições Saída de Emergência, 2017.

Jordan, Hillary – As Lamas do Mississípi, Edições Saída de Emergência, 2017.

Este livro demonstra, plenamente, que uma boa narrativa se constrói devagar. Com efeito, a autora diz-nos que levou tempo a escrever esta história. Tenho a certeza que este fator, aliado a um intrínseco talento literário, determinou o fulgor desta obra. É um drama centrado na complexidade das relações familiares e na injustiça da segregação racial na região do Delta do Mississípi, logo após a II Guerra Mundial. A narrativa é deveras singular: seis vozes, seis perspetivas sobre as relações familiares e raciais. Consequentemente, o leitor apreende uma constante dualidade: entre homem e mulher; entre branco e negro; entre proprietário e arrendatário. De um lado, estão os McAllan, brancos e donos de terras; do outro, os Jackson, negros e seus arrendatários. O cenário é marcado pela lama que cobria tudo: a terra e a vida das pessoas. A terra é plana, incaracterística, triste… «um oceano castanho e sem relevos» onde os personagens foram «largados à deriva» (p.61).

Pela sua força e vigor, sobressaem as mulheres: Laura McAllan e Florence Jackson. Laura porque recusa o papel de esposa dedicada e invisível, «a que desempenhava os seus papéis sem nunca os habitar» (p.194); Florence porque percebe, de forma aguda, a desgraça que se vai construindo naquele microcosmos: «o Delta pega numa mulher e chupa-lhe a seiva toda do corpo até não haver mais nada senão ossos e ressentimento» (p.78). O discurso dos personagens masculinos é caracterizado pelo orgulho: quer Henry McAllan, quer Hap Jackson centram a sua vivência na posse concreta [ou desejo] de terra. A única riqueza que pode realmente pertencer a um homem. Os outros dois personagens masculinos, Jamie McAllan e Ronsel Jackson, são o detonador da tragédia. Em comum, têm a sua juventude e o seu estatuto de ex-combatentes na II Guerra. Ao transgredir as regras de uma sociedade segregada, o sentimento destrutivo de Jamie, «sou como o pedaço de um navio dado à costa» (p. 37), a par da profunda amargura de Ronsel, «fui lutar pelo meu país e regressei para ver que nada mudou» (p. 120), levam à tragédia…numa noite «cheia de possibilidades à espera de convergirem, até se transformarem numa forma monstruosa» (p. 227). Depois…apenas o silêncio, físico e psicológico, e uma esperança ténue de que poderá haver capacidade para superar tudo: «nascimento, educação, opressão, medo, deformidade e vergonha…» (p.259).