Notas de Leitura

Salih, Tayeb, Época de Migração para Norte, Edição Cavalo de Ferro, 2019.

Salih, Tayeb, Época de Migração para Norte, Edição Cavalo de Ferro, 2019.

O espaço assume particular importância nesta narrativa de Tayeb Salih. O narrador, depois de vários anos a estudar na Europa, regressa à sua aldeia natal situada no Sudão rural, junto «à curva do Nilo» (p.13). De Cartum, a capital, até à pequena localidade percorria-se um caminho infernal, ao longo do Nilo, debaixo de um céu ardente, sem uma única nuvem. Os dias não tinham qualquer valor, eram apenas horas de agonia suportadas pelos seres vivos, enquanto aguardavam pela noite. Esta, sim, era a «redenção» (p.103). O rio é o referente espacial e sentimental. Nele principiam e terminam todas as coisas: «sem o qual não haveria princípio nem fim, corria para norte, sem que nada pudesse desviar a sua atenção» (p.72). A aldeia é um local pacífico, onde o narrador sente o «calor da vida» no seio da sua tribo. Nada de extraordinário se passa. Exceto a presença de um personagem misterioso, oriundo de Cartum, de nome Mustafá Said. Tinha a peculiaridade de ter sido o primeiro sudanês a ir para o estrangeiro. Dominava, desde criança, a língua inglesa, ministrada na escola colonial que frequentara. Essa escola que fora erigida para que os meninos sudaneses aprendessem a dizer, em perfeito inglês, «sim senhor!» (p.94).  

A língua inglesa era a chave de um “futuro promissor” na administração britânica que absorvia os «ingleses negros» (p.57). Mustafá Said recusa percorrer esse caminho convencional. A sua permanência como estudante em Londres, no ambiente saído da Grande Guerra e da opressão vitoriana, permite-lhe construir e desempenhar o papel de homem-lobo: seduzir e destruir todas as jovens mulheres que se cruzam com ele. O seu quarto transforma-se num «campo de batalha» e a sua cama num «fragmento do inferno» (pp.40-41). Possuia uma desenvoltura física e intelectual que, facilmente, conquistava  as mulheres europeias. Uma vez saciado, avançava em direção a «outra presa», movido por um desejo insano. Porquê semelhante comportamento, e porquê o seu regresso ao Sudão? Que demónios pode um homem carregar dentro de si? Estabelece-se na pequena e pacífica aldeia, junto à curva do Nilo, onde a vida decorre tranquilamente. Mas, um dia, desaparece engolido pelo rio…Acidente ou suicídio? Só Deus sabe. Aos homens não interessa, porque a vida, nessa pequena localidade, estava destinada a prosseguir…«mercê do hábito, numa longa caravana…» (p.65).